Pugliesi faturou milhões vendendo neurose alimentar
Gabriela Pugliesi carregava prensa francesa de café em aeroportos. Marmitas de tofu iam junto. Canela e óleo de coco nunca faltavam na bagagem de mão. A rotina maluca rendeu milhões de seguidores — e um faturamento que transformou obsessão alimentar em negócio lucrativo.
Aos 40 anos, a influencer finalmente admite: era neurose disfarçada de saúde.
O império construído sobre restrição
Pugliesi surfou a onda do wellness que explodiu no Brasil entre 2012 e 2018. Enquanto o brasileiro médio ganha R$ 2.900 por mês, ela monetizou cada caloria contada, cada treino filmado, cada suplemento indicado.
Os números não mentem. Influencers fitness do primeiro escalão faturam entre R$ 50 mil e R$ 300 mil por publipost. Pugliesi estava no topo dessa cadeia alimentar — literalmente.
Cursos online. Planos alimentares. Parcerias com marcas de suplementos. Roupas de ginástica. O modelo de negócio era simples: vender a ilusão de controle absoluto sobre o corpo.
Quem lucrou com a paranoia
Por trás da prensa francesa e das marmitas, uma indústria bilionária. O mercado brasileiro de suplementos movimenta R$ 4,2 bilhões anuais. O de academias, outros R$ 3,5 bilhões.
Pugliesi era garota-propaganda gratuita — ou melhor, remunerada indiretamente por cada produto que "naturalmente" aparecia em suas redes.
A estratégia funcionava porque tocava no ponto sensível: a insegurança corporal de milhões de mulheres brasileiras. Vendeu-se um padrão inatingível como se fosse questão de disciplina.
"Eu andava com a minha comida o dia inteiro. É bizarro", admitiu Pugliesi em seu Instagram.
A virada do discurso
Agora, Pugliesi come de tudo. Mantém o físico sem as restrições que pregou por anos. E lucra com essa nova narrativa — a da "aceitação" e do "equilíbrio".
O cinismo é evidente. Ela construiu fortuna promovendo exatamente o comportamento obsessivo que hoje critica. Não devolveu o dinheiro. Não pediu desculpas formais às seguidoras que desenvolveram transtornos alimentares tentando replicar sua rotina.
Apenas pivotou o discurso. Porque é isso que influencers profissionais fazem: vendem o que está vendendo no momento.
Quem paga a conta
Enquanto Pugliesi transitava entre neuroses lucrativas, suas seguidoras bancavam a terapia para tratar ortorexia — obsessão patológica por alimentação saudável.
O SUS não tem estatísticas oficiais, mas nutricionistas relatam aumento exponencial de casos entre 2015 e 2020. Coincidentemente, o auge do fitness gospel nas redes sociais.
A influencer está bem. Mantém contratos, seguidores, relevância. Transformou até a autocrítica em conteúdo monetizável.
O modelo se repete em todo o mercado de influência digital brasileiro: cria-se uma necessidade artificial, vende-se a solução, depois vende-se a crítica à própria solução. Três ciclos de faturamento sobre o mesmo público.
Pugliesi não é vilã solitária. É apenas a face mais conhecida de um sistema onde insegurança virou commodity. E enquanto houver quem compre, haverá quem venda — prensa francesa e óleo de coco inclusos.