Quadro de R$ 50 milhões no MASP esconde drama de herdeira judia

Quadro de R$ 50 milhões no MASP esconde drama de herdeira judia
Foto: redir.folha.com.br

Um quadro que vale hoje cerca de R$ 50 milhões pendurado no Museu de Arte de São Paulo esconde uma história de dinheiro, poder e tragédia que atravessou um século. "Rosa e Azul", do francês Pierre-Auguste Renoir, mostra duas meninas de vestidos coloridos. Uma delas, Elisabeth Cahen d'Anvers, viveu para ver sua família destruída pelos nazistas.

Em 1881, Renoir recebeu 1.500 francos — cerca de R$ 40 mil em valores atuais — para pintar as filhas do banqueiro Louis Cahen d'Anvers. Elisabeth tinha seis anos. Alice, cinco. O pai era um dos homens mais ricos de Paris. A mãe, Louise, comandava os salões da alta sociedade francesa.

Da Belle Époque ao inferno nazista

A família Cahen d'Anvers era judia e bilionária. Possuía bancos, minas de carvão e influência política. Elisabeth cresceu entre bailes, jantares de gala e obras de arte. Casou-se com um conde. Teve filhos. A vida era um conto de fadas milionário.

Até 1940.

Quando os nazistas ocuparam a França, a fortuna da família virou alvo. Os alemães confiscaram tudo: mansões, contas bancárias, joias e dezenas de obras de arte. O quadro "Rosa e Azul" estava entre elas. Elisabeth, já idosa, viu o patrimônio de gerações evaporar em semanas.

O rastro do dinheiro

Após a guerra, a pintura ressurgiu no mercado de arte. Mudou de mãos várias vezes. Passou por colecionadores americanos e europeus. Cada transação multiplicava seu valor. Em 1952, chegou ao Brasil pelas mãos de Assis Chateaubriand, o magnata da comunicação que fundou o MASP.

Chateaubriand nunca revelou quanto pagou. Especialistas estimam que foi uma fortuna mesmo para os padrões da época. O empresário tinha um método peculiar: pressionava industriais e banqueiros brasileiros a "doar" dinheiro para comprar obras europeias. Quem doava ganhava prestígio social. Quem recusava, enfrentava campanhas negativas em seus jornais.

Quem manda na memória

O livro "The Renoir Girls", recém-lançado nos Estados Unidos, reconstrói a trajetória das irmãs retratadas. Elisabeth morreu em 1944, aos 69 anos, sem recuperar nada do que perdeu. Seus descendentes tentaram reaver algumas obras após a guerra, mas enfrentaram uma burocracia impiedosa.

Hoje, "Rosa e Azul" é uma das estrelas do acervo do MASP. Milhares de brasileiros passam por ela todo ano. Poucos sabem que estão diante de uma pilhagem nazista transformada em patrimônio cultural. A obra não pode ser vendida — é tombada como bem público brasileiro.

"A história da arte é também a história de quem pode pagar por ela", resume um dos autores do livro.

Elisabeth posou para um dos maiores pintores da história por 1.500 francos. Perdeu tudo para um regime genocida. E acabou eternizada num museu a 10 mil quilômetros de Paris, patrimônio de um país que ela nunca conheceu. Dinheiro e poder escrevem histórias estranhas.

Fernando Andrade Villela

Fernando Andrade Villela

Investigador financeiro. Cobre offshores, patrimônio declarado vs. real, e o cruzamento entre política e mercado.