Quem manda no Brasil: a elite que decide o que você assiste

Quem manda no Brasil: a elite que decide o que você assiste
Foto: revistaquem.globo.com

Enquanto 33 milhões de brasileiros passam fome, duas atrizes da Globo—Daphne Bozaski e Gabriela Medvedovsky—estreiam peça de teatro em São Paulo sobre inteligência artificial. Ingresso? Entre R$ 80 e R$ 200. Salário mínimo: R$ 1.412.

A peça se chama Pergunte Alguma Coisa. Estreia dia 6 de agosto no Teatro Tucarena, na Vila Mariana. Zona nobre da capital paulista, onde o metro quadrado vale R$ 8.500.

Mas a questão não é o teatro. A questão é quem manda no Brasil do entretenimento—e quanto dinheiro circula enquanto você paga boleto.

O império Globo e seus produtos

Daphne e Gabriela não são atrizes quaisquer. São produtos Globo. Saíram de Malhação – Viva a Diferença (2017), ganharam spin-off próprio, As Five (2020), e agora estrelam Três Graças (2026).

A Globo faturou R$ 13,2 bilhões em 2025. João Roberto Marinho, um dos três herdeiros do império, tem fortuna estimada em US$ 3,1 bilhões pela Forbes.

É esse dinheiro que decide o que você assiste. Quem vira estrela. Quem ganha novela. Quem estreia no teatro.

Gustavo Pinheiro escreveu a peça "especialmente para a dupla". Guilherme Gobbi dirige. Ambos orbitam o mesmo ecossistema: festivais, editais, teatro comercial paulistano.

Teatro em São Paulo: para quem?

O Teatro Tucarena fica dentro do Shopping Frei Caneca. Tem 351 lugares. Infraestrutura moderna. Ar-condicionado. Estacionamento a R$ 18 a hora.

São Paulo tem 287 teatros cadastrados. A maioria na zona oeste e centro expandido. Regiões onde o IDH ultrapassa 0,9—padrão de países desenvolvidos.

Na periferia, onde vivem 7 milhões de pessoas, há 12 teatros.

A conta é simples: quem manda no Brasil decide não apenas o que é produzido, mas onde—e para quem.

Inteligência artificial como tema—e como ferramenta

A peça fala de IA. Tema da moda. ChatGPT virou conversa de jantar. Startups de tecnologia levantam milhões.

Mas a IA também está nos bastidores do entretenimento. Roteiros gerados por algoritmos. Análise de audiência. Decisões sobre renovação de contratos.

A Globo usa IA para prever quais novelas terão maior audiência. Para decidir quanto investir em cada projeto. Para saber se Daphne e Gabriela "performam bem" nas redes sociais.

O teatro é analógico. Mas o sistema que o alimenta é digital—e comandado por quem tem acesso aos dados.

O dinheiro por trás da cortina

Uma produção teatral comercial em São Paulo custa entre R$ 300 mil e R$ 2 milhões. Depende do elenco, do espaço, da campanha de marketing.

Com duas atrizes conhecidas nacionalmente, Pergunte Alguma Coisa provavelmente está na faixa dos R$ 800 mil a R$ 1,5 milhão.

De onde vem esse dinheiro? Produtores privados, leis de incentivo (dinheiro público via renúncia fiscal), patrocínio de marcas que querem associar-se à "cultura".

A Lei Rouanet permitiu R$ 1,2 bilhão em captação para projetos culturais em 2025. Teatro comercial em São Paulo leva fatia generosa.

Enquanto isso, 47% dos municípios brasileiros não têm biblioteca pública.

Quem está no topo

A resposta para quem manda no Brasil do entretenimento é sempre a mesma: velhas famílias da mídia, novos bilionários da tecnologia, e uma elite cultural paulistana que se retroalimenta.

Daphne Bozaski tem 1,2 milhão de seguidores no Instagram. Gabriela Medvedovsky, 1,6 milhão. Influência que se converte em bilheteria.

E o ciclo continua: da TV para o teatro, do teatro para o streaming, do streaming de volta para a TV.

Você paga a conta—e aplaude de pé.

Carolina Pereira Ferraz

Carolina Pereira Ferraz

Cronista de poder e dinheiro. Ex-Forbes Brasil, ex-Piauí. Especializada em rankings de riqueza, dinastias políticas e herdeiros do poder.