Quem manda no Brasil: pais traficantes ou professores?

Quem manda no Brasil: pais traficantes ou professores?
Foto: G1

A professora Marta ganha R$ 3.200 por mês. O pai que prometeu matá-la provavelmente movimenta isso em uma noite. Ela ensina crianças de seis anos. Ele comanda uma comunidade inteira na Zona Oeste de São Paulo. Quem manda no Brasil?

Em março de 2023, Marta ouviu pelo telefone da escola: "Vou matar aquela vagabunda". O homem do outro lado da linha era pai de um aluno do 1º ano. Seu crime? Tentar ensinar o filho dele a ler.

"A lei ali é diferente", resume a professora com 26 anos de magistério. Tradução: o Estado brasileiro não existe em boa parte do próprio território.

Os números que ninguém quer ver

Mais de 65% dos professores brasileiros já sofreram alguma forma de agressão na sala de aula ou no ambiente escolar. Não estamos falando de discussões acaloradas. Estamos falando de ameaças de morte, agressões físicas, terror psicológico.

São 2,2 milhões de profissionais sob ataque constante. O salário médio? R$ 3.845. O poder real? Zero.

Enquanto isso, quem realmente comanda territórios inteiros no Brasil fatura milhões mensais. Não paga imposto. Não responde a ninguém. E seus filhos vão à escola pública — onde humilham quem ganha em um mês o que eles gastam em uma hora.

O império invisível

Marta sabia que não podia fazer nada. "Ele tinha um certo cartaz na comunidade", explica, usando o eufemismo que todo mundo entende.

Boletim de ocorrência? Inútil. Processo judicial? Piada. Proteção do Estado? Inexistente.

A professora engoliu o medo e continuou dando aula. Porque precisa do salário. Porque tem contas a pagar. Porque no Brasil quem trabalha honestamente não tem escolha.

"Como trabalhamos em uma comunidade, essas coisas não podem ser negligenciadas. A lei ali é diferente."

Leia de novo. Uma professora brasileira, funcionária pública, admitindo que a lei brasileira não vale em seu local de trabalho.

A verdadeira estrutura de poder

Enquanto políticos debatem reformas educacionais em Brasília — ganhando R$ 40 mil por mês mais mordomias — a realidade nas escolas é outra.

Quem manda de verdade:

  • Não foi eleito
  • Não presta contas
  • Não aparece em organogramas oficiais
  • Mas controla territórios maiores que cidades europeias

E seus representantes — os pais que ameaçam professoras por telefone — sabem que podem fazer o que quiserem. Porque podem.

O custo real

Cada professor agredido é uma mensagem para toda a sociedade: o Estado falhou. A ordem oficial é ficção. O poder real está em outro lugar.

Marta continua dando aula. Continua ganhando seus R$ 3.200. Continua acordando às 5h da manhã para ensinar crianças cujos pais podem destruir sua vida com um telefonema.

E o governo? Debate cotas, ENEM, Base Nacional Curricular. Tudo muito importante. Tudo muito irrelevante quando seus funcionários não podem trabalhar sem medo de morrer.

A educação brasileira não precisa de reforma pedagógica. Precisa de soberania territorial.

Mas isso não cabe em PowerPoint de ministério.

Enquanto isso, Marta acorda amanhã às 5h. Porque precisa. Porque o aluguel vence dia 10. Porque no Brasil, quem trabalha honestamente sempre perde.

E quem manda de verdade? Ah, você já sabe a resposta.

Carolina Pereira Ferraz

Carolina Pereira Ferraz

Cronista de poder e dinheiro. Ex-Forbes Brasil, ex-Piauí. Especializada em rankings de riqueza, dinastias políticas e herdeiros do poder.