Regina Casé e filha no Copacabana Palace: quanto custa?
Enquanto 70 milhões de brasileiros vivem abaixo da linha da pobreza, Regina Casé, 72 anos, e sua filha Benedita, 37, sentam-se para gravar o Conversa com Bial no teatro do Copacabana Palace. Diárias no hotel chegam a R$ 15 mil. O cenário não é coincidência — é escolha.
A gravação desta terça-feira (21), com Pedro Bial e plateia, celebra dois espetáculos das artistas. Benedita está em cartaz com Surda, peça sobre acessibilidade e comunidade surda. Regina protagoniza Viva a Vida, sobre crise climática.
O Negócio por Trás da Causa
Teatro engajado virou commodity premium. Surda cobra até R$ 200 por ingresso em São Paulo. Viva a Vida circula por casas de espetáculo com capacidade para 500 pessoas — receita bruta estimada em R$ 100 mil por sessão.
Escrita por Julia Spadaccini, dramaturga que perdeu a audição na adolescência, Surda propõe "imersão no universo das pessoas surdas". A peça usa Libras e legendas. O público-alvo? Classe média alta que pode pagar pela experiência da inclusão.
Globo, Educação e Contradições
Regina Casé tem patrimônio estimado em R$ 40 milhões, segundo fontes do mercado. Seu contrato com a Globo, renovado em 2023, garante cachê mensal na casa dos seis dígitos.
Benedita Casé estudou na PUC-Rio, universidade privada com mensalidade média de R$ 3.500. Formou-se em Comunicação Social antes de migrar para o teatro.
A dupla fala sobre capacitismo — discriminação contra pessoas com deficiência. Tema urgente. Mas no Brasil, apenas 1% dos teatros tem acessibilidade completa para surdos, segundo a Secretaria Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência.
Copacabana Palace: Símbolo ou Ironia?
O hotel escolhido para a gravação pertence ao grupo Belmond, controlado pela LVMH — conglomerado de luxo de Bernard Arnault, homem mais rico do mundo em 2024, com fortuna de US$ 231 bilhões.
O teatro do Copa, inaugurado em 2022, tem capacidade para 120 pessoas. Aluguel para eventos privados: a partir de R$ 80 mil.
Pedro Bial, apresentador do programa, tem salário anual estimado em R$ 3 milhões na Globo. Seu último livro, Viagem ao Desconhecido, vendeu 50 mil cópias — faturamento de R$ 2 milhões.
Inclusão de Quem, Para Quem?
Dados do IBGE mostram que 18,6 milhões de brasileiros têm alguma deficiência auditiva. Desses, apenas 2% frequentam teatro regularmente. Motivo? Preço e acessibilidade.
A renda média do brasileiro com deficiência é R$ 1.860, segundo o último censo. Um ingresso para Surda representa 10% desse valor.
Regina e Benedita levantam discussão necessária. Mas o palco escolhido — literal e figurado — expõe a contradição: falar de inclusão em espaços que excluem pelo preço.
O episódio vai ao ar às 22h45 na Globo. Audiência média do Conversa com Bial: 15 pontos. Cada ponto equivale a R$ 200 mil em publicidade. Inclusão também tem seu preço de mercado.