Relógio de R$ 2 mil dura 21 dias: vale mais que patrimônio senadores?

Relógio de R$ 2 mil dura 21 dias: vale mais que patrimônio senadores?
Foto: canaltech.com.br

Enquanto o Brasil debate o patrimônio de senadores e seus relógios de luxo declarados, a chinesa Xiaomi despeja no mercado nacional um smartwatch de R$ 1.999 que promete funcionar 21 dias sem tomada. O Watch S5 chega com pretensões premium num país onde o salário mínimo não compra nem dois.

A jogada é clara: mirar no bolso de quem pode pagar dois mil reais num relógio inteligente. E há mercado.

Aço inoxidável e tela que brilha mais que promessa eleitoral

O dispositivo vem embalado em aço inoxidável 316L, o mesmo material usado em relógios suíços que custam dez vezes mais. A tela AMOLED de 1,48 polegada entrega resolução de 480 x 480 pixels e brilho de 2.500 nits — especificação que traduzida significa: dá pra ver a tela mesmo sob sol forte.

Enquanto isso, tablets nas escolas públicas não ligam por falta de carregador.

Bateria que dura mais que mandato

A grande aposta da Xiaomi é a autonomia. Vinte e um dias longe da tomada. No modo de uso intenso, a promessa cai para 7 dias — ainda assim, mais que o dobro de qualquer Apple Watch ou Galaxy que se preze.

A comparação é inevitável: enquanto um smartwatch de elite precisa de recarga diária, o chinês entrega três semanas. É tecnologia de bateria ou apenas tela que consome menos? Provavelmente as duas coisas.

O mercado de wearables cresce — e concentra

O segmento de wearables premium movimenta bilhões globalmente. No Brasil, é nicho de quem ganha em dólar ou tem cargo com auxílio-moradia. A Xiaomi sabe disso.

O preço de R$ 1.999 posiciona o Watch S5 abaixo dos concorrentes diretos da Samsung e Apple, que facilmente ultrapassam R$ 3 mil. É caro? Sim. Mas no universo dos smartwatches "de verdade", é quase uma pechincha.

"A gente vende relógio de R$ 2 mil como água enquanto deputado declara Rolex de R$ 80 mil e ninguém pergunta de onde veio"

A frase, de um vendedor de loja de eletrônicos na Paulista, resume o Brasil em 2025.

Quem está por trás da Xiaomi

A fabricante chinesa é a terceira maior do mundo em smartphones e cresce forte em IoT (internet das coisas). Faturou US$ 37 bilhões em 2023. No Brasil desde 2019, aposta em precificação agressiva e volume.

O Watch S5 é a nova tentativa de entrar no segmento onde Apple domina com 35% de market share global. A estratégia? Mesma de sempre: especificação alta, preço médio, volume gigante.

Durabilidade ou obsolescência programada elegante?

Vinte e um dias de bateria impressionam. Mas o histórico da indústria tech ensina: durabilidade de bateria é marketing até a próxima atualização de software que "otimiza o sistema".

A Xiaomi promete. O tempo dirá se cumpre.

Enquanto isso, o Watch S5 já está nas prateleiras brasileiras. Para quem pode pagar. Para quem quer ostentar tecnologia no pulso enquanto o patrimônio de senadores vira meme nas redes sociais.

Dinheiro e poder sempre andaram juntos. Agora andam com smartwatch de 21 dias de bateria.

Fernando Andrade Villela

Fernando Andrade Villela

Investigador financeiro. Cobre offshores, patrimônio declarado vs. real, e o cruzamento entre política e mercado.