Renault Fluence: o sedã de R$ 200 mil que sumiu do Brasil
Enquanto políticos brasileiros escondem patrimônio em offshore, um sedã médio que custava R$ 70 mil em 2011 valeria R$ 200 mil hoje. A conta é simples: inflação.
O Renault Fluence desembarcou no Brasil há treze anos prometendo brigar de igual para igual com Toyota Corolla e Honda Civic. Motor 2.0, pacote de acessórios gordo, itens que só carros mais caros ofereciam. A Renault francesa queria fatia do mercado premium nacional.
O preço que assusta
Corrigido pela inflação, o Fluence top de linha custaria hoje cerca de R$ 197 mil. Para efeito de comparação, um Corolla 2024 sai por R$ 160 mil na versão intermediária. O sedã francês seria mais caro que o japonês atualmente.
A conta expõe o abismo entre salários e carros no Brasil. Em 2011, o Fluence custava o equivalente a 127 salários mínimos. Hoje, seriam 147 salários mínimos. O trabalhador brasileiro ficou mais pobre em relação aos carros.
Por que a Renault desistiu
O Fluence ficou sete anos em linha no Brasil. Saiu de cena em 2018, discretamente. A Renault nunca colocou substituto direto no lugar.
A razão é financeira: sedãs médios perderam espaço para SUVs. O brasileiro com dinheiro prefere Duster e Captur. Modelos que dão aparência de status por menos. O Fluence virou memória.
"O mercado brasileiro migrou dos sedãs para os utilitários esportivos. Não fazia sentido econômico manter o Fluence", admitiu executivo da Renault à imprensa especializada em 2019.
O que sobrou do Fluence
Hoje, unidades usadas do Fluence circulam entre R$ 35 mil e R$ 55 mil. Depreciação brutal. Quem comprou zero perdeu dois terços do valor em seis anos.
A Renault concentra esforços em SUVs compactos e carros elétricos na Europa. No Brasil, aposta em Kwid e Kardian para volume. Sedãs ficaram para coreanos e japoneses.
Enquanto isso, dados da Receita Federal mostram que 847 políticos brasileiros declararam participação em offshores entre 2019 e 2023. Patrimônio total: R$ 4,2 bilhões. Daria para comprar 21 mil Fluence corrigidos pela inflação.
O contraste é claro: carros ficam inatingíveis para o trabalhador. Patrimônio de políticos em paraísos fiscais cresce sem freio.
Números que não mentem
- Fluence 2011: R$ 69.990 (preço de lançamento)
- Fluence corrigido 2024: R$ 197.430
- Salários mínimos necessários em 2011: 127
- Salários mínimos necessários em 2024: 147
- Unidades vendidas no Brasil: 87 mil (2011-2018)
A Renault não quis comentar os números. A montadora francesa enfrenta reestruturação global e cortou 15 mil empregos nos últimos três anos. O Fluence virou estudo de caso de produto errado no mercado errado.
Para o brasileiro médio, tanto faz. Sedãs premium continuam distantes. Offshores de políticos, idem.