Revolta: dono quebra placa de app chinês que cobra 30% do faturamento

Revolta: dono quebra placa de app chinês que cobra 30% do faturamento
Foto: Metrópoles

Um comerciante perdeu a paciência. Pegou a placa do Keeta — app de delivery chinês — e destruiu na frente das câmeras. O vídeo viralizou. A revolta tem motivo: ele acusa a plataforma de sugar até 30% do faturamento do restaurante.

Enquanto o dono do estabelecimento quebra o lombo pra pagar aluguel, funcionários e fornecedores, as big techs asiáticas embolsam fatias gordas de cada marmita vendida. O Keeta é controlado pelo gigante chinês Meituan, avaliado em US$ 100 bilhões. Cem bilhões de dólares.

O caso expõe a guerra silenciosa entre pequenos comerciantes brasileiros e plataformas estrangeiras que ditam as regras do jogo. Quem manda de verdade no seu bairro não é mais o dono do restaurante da esquina. É um algoritmo programado em Shenzhen.

O custo invisível do delivery

Os números são brutais. Apps de entrega cobram entre 20% e 35% de comissão por pedido. Somam-se taxas de marketing, descontos obrigatórios e promoções impostas pelas plataformas. No fim das contas, a margem do comerciante derrete.

O Keeta chegou ao Brasil em 2023 prometendo taxas menores. A estratégia clássica: dumping inicial pra ganhar mercado, depois aperta o cerco. Agora os restaurantes descobrem que o preço da "parceria" saiu caro demais.

Segundo relatos de donos de estabelecimentos, a plataforma aplica descontos unilaterais, congela repasses e dificulta o cancelamento de contratos. Tudo documentado em contratos leoninos que o comerciante assina sem advogado — porque precisa vender hoje, não amanhã.

Davi contra Golias de olhos puxados

O dono do restaurante que quebrou a placa não revelou identidade completa. Provavelmente teme retaliação. As plataformas têm poder de vida e morte sobre pequenos negócios: basta sumir dos resultados de busca do app pra faturamento despencar 70%.

É chantagem digital na veia.

Enquanto isso, o Meituan — dono do Keeta — registrou lucro líquido de US$ 2,4 bilhões só no último trimestre. O fundador Wang Xing tem fortuna pessoal estimada em US$ 15 bilhões. Não perdeu sono com plaquinha quebrada em Samambaia ou Ceilândia.

O jogo do delivery

Três gigantes controlam o mercado brasileiro de delivery:

  • iFood — braço da Movile, com investimento pesado do Naspers (África do Sul)
  • Rappi — colombiana bancada por SoftBank japonês
  • Keeta — chinês do grupo Meituan

Nenhum deles é brasileiro. Todos extraem bilhões do mercado nacional. Parte desse dinheiro vira lucro em Bogotá, Joanesburgo, Tóquio e Beijing. Outra parte financia guerra de subsídios pra matar concorrentes menores.

O comerciante brasileiro fica no meio do fogo cruzado. Aceita as condições abusivas ou fecha as portas. Não tem plano B.

Poder e dinheiro na ponta do garfo

A revolta do dono do restaurante é sintoma de problema maior. Pequenos negócios viraram reféns de plataformas que não prestam contas a ninguém. Não tem Procon que resolva. Não tem sindicato que enfrente.

O vídeo da placa quebrada já passou de 2 milhões de visualizações. Virou símbolo. Mas símbolo não paga conta. Enquanto isso, o Keeta continua operando normalmente, cobrando suas taxas, impondo seus descontos.

E o comerciante? Esse vai ter que comprar placa nova. Porque sem app, não vende. Sem venda, não come. Simples assim.

Bem-vindo ao capitalismo de plataforma. Onde o cliente acha que manda, o restaurante acha que trabalha, mas quem realmente lucra está a 17 mil quilômetros de distância contando yuans.

Fernando Andrade Villela

Fernando Andrade Villela

Investigador financeiro. Cobre offshores, patrimônio declarado vs. real, e o cruzamento entre política e mercado.