Salles volta à cena: entrevista expõe ambição ao Senado
Ricardo Salles, o ex-ministro do Meio Ambiente que transformou pastas técnicas em palanques ideológicos, senta-se hoje diante das câmeras do programa Frente a Frente. A entrevista conjunta da Folha e do UOL coloca o deputado federal — agora pré-candidato ao Senado por São Paulo — sob os holofotes que ele nunca abandonou.
O timing não é coincidência. Salles precisa de exposição. E a dupla Folha-UOL entrega audiência qualificada: formadores de opinião, empresários, investidores. Exatamente o público que define corridas senatoriais em estados como São Paulo, onde cada voto custa caro e cada segundo de TV vale ouro.
Do Planalto para o Congresso
Salles deixou o governo Bolsonaro em 2021 cercado de polêmicas ambientais e investigações. Elegeu-se deputado federal pelo Novo em 2022 com 269 mil votos — uma bancada própria, financiada por doadores que apostam em sua capacidade de fazer barulho.
Agora mira o Senado. A cadeira vale R$ 35 mil mensais de subsídio, mas o verdadeiro prêmio está no poder institucional: senadores aprovam ministros do STF, embaixadores, dirigentes de estatais. Controlam o fluxo de dinheiro federal.
São Paulo elege dois senadores em 2026. A disputa promete movimentar entre R$ 200 milhões e R$ 300 milhões em campanhas, segundo estimativas de marqueteiros políticos ouvidos off the record.
A estratégia da provocação
O programa Frente a Frente virou vitrine para políticos em ano eleitoral. O formato — entrevista longa, sem cortes — permite que candidatos construam narrativas além dos 30 segundos do horário eleitoral.
Salles domina esse jogo. Transformou polêmicas ambientais em capital político entre eleitores de direita. Cada crítica da imprensa tradicional vira combustível para redes sociais e grupos de WhatsApp.
A pergunta que fica: quem financia essa máquina? Salles declarou ao TSE patrimônio de R$ 2,3 milhões em 2022. Modesto para quem pretende disputar uma vaga ao Senado em SP, onde campanhas competitivas exigem estruturas milionárias.
Poder e dinheiro em Brasília
O Senado Federal concentra poder desproporcional ao tamanho — 81 cadeiras que controlam indicações estratégicas e definem rumos de reformas tributárias, ambientais e econômicas.
Cada senador comanda orçamentos de comissões, articula emendas parlamentares (até R$ 50 milhões anuais por gabinete) e negocia diretamente com Planalto e STF.
Salles sabe disso. Sua trajetória passa por Secretaria Estadual, Ministério e Câmara. O Senado fecha o ciclo — e abre portas para 2030.
A entrevista desta segunda é apenas o primeiro round. A campanha real começa depois — e será travada não em debates televisivos, mas em jantares fechados com grandes doadores, reuniões com federações empresariais e acordos nos bastidores do poder.
Enquanto isso, eleitores comuns assistem ao espetáculo sem saber quanto custa o ingresso. Ou quem realmente está pagando a conta.