Ricardo Salles ao Senado: fortuna e offshore no Novo
Enquanto o brasileiro médio ganha R$ 2.640 por mês, o Partido Novo oficializou uma chapa milionária para as eleições em São Paulo. Ricardo Salles, ex-ministro do Meio Ambiente de Bolsonaro, vai disputar o Senado Federal. O patrimônio declarado do candidato supera R$ 3,5 milhões.
A movimentação expõe o DNA do partido: empresários, executivos e profissionais liberais de alto escalão. Zero operários. Zero professores da rede pública. Zero trabalhadores do setor de serviços.
Quem paga a conta
O Novo se vende como alternativa ao establishment. Mas o perfil dos candidatos conta outra história. A lista para deputado estadual e federal reúne gestores de fundos, advogados corporativos e empresários do setor tecnológico.
São Paulo concentra o maior número de offshores registradas por políticos brasileiros, segundo dados da Receita Federal cruzados com declarações ao TSE. A correlação não é casual: quanto maior o patrimônio, maior a sofisticação dos instrumentos financeiros.
Salles conhece bem esse universo. Investigado na Operação Akuanduba por facilitação de exportação ilegal de madeira, o ex-ministro enfrenta processos que questionam sua atuação à frente da pasta ambiental. Ele nega as acusações.
O paradoxo liberal
O partido defende Estado mínimo e livre mercado. Mas seus quadros dependem de estruturas estatais robustas para proteger fortunas: sistema judiciário, regulação financeira, acordos internacionais contra bitributação.
A chapa paulista do Novo inclui mais de 100 candidatos. O investimento na campanha deve ultrapassar R$ 20 milhões, segundo projeções do próprio partido. Dinheiro privado, estratégia empresarial, marketing agressivo.
Para comparação: uma campanha média de vereador em cidade de médio porte custa R$ 50 mil. O Novo gasta 400 vezes mais só em São Paulo.
Offshore e transparência
A discussão sobre offshore políticos brasil ganhou tração após os Panama Papers e Pandora Papers. Ter empresa no exterior não é crime. Mas levanta questões: por que políticos que decidem impostos usam paraísos fiscais? Por que fortunas migram para jurisdições opacas?
O Novo promete transparência. Publica gastos online, limita mandatos, proíbe reeleição interna. Mas não exige que candidatos declarem offshores ou estruturas financeiras complexas além do obrigatório ao TSE.
Ricardo Salles declarou ao tribunal eleitoral contas bancárias, imóveis e participações societárias. Nada de irregular tecnicamente. Mas o patrimônio coloca o candidato no 0,1% mais rico do país.
A disputa real
São Paulo elege dois senadores em 2026. A esquerda deve lançar nomes fortes. O centrão articula composições. Salles representa a direita bolsonarista com verniz liberal.
O eleitorado do Novo é estreito mas fiel: classe média alta, moradores de condomínios fechados, empresários pequenos e médios. Gente que acredita meritocracia enquanto herda imóveis.
A estratégia eleitoral é clara: polarizar com a esquerda, absorver votos de Bolsonaro, pescar no tanque do PSDB moribundo. Funciona em bairros nobres. Fracassa nas periferias.
No final, eleição é matemática. O Novo aposta que seu candidato ao Senado consiga 15% dos votos válidos. Otimismo de quem nunca pegou ônibus lotado às 6h da manhã.
Ricardo Salles não respondeu aos pedidos de entrevista até o fechamento desta matéria.