Ricos do Congresso querem elevar esteticistas ao status médico
Enquanto 30 milhões de brasileiros esperam anos por uma consulta no SUS, os ricos do Congresso descobriram uma nova categoria de "profissionais da saúde": esteticistas.
A Câmara dos Deputados analisa projeto que reconhece quem faz limpeza de pele e drenagem linfática como trabalhadores do setor de saúde — no mesmo patamar de médicos, enfermeiros e fisioterapeutas.
O timing não poderia ser mais conveniente. O mercado de estética movimenta R$ 80 bilhões por ano no Brasil. É o quarto maior do mundo.
Quem ganha com isso
A proposta amplia as possibilidades de atuação dos esteticistas e criminaliza — criminaliza mesmo — sanções administrativas aplicadas "fora das competências legais". Traduzindo: quem fiscalizar errado pode ir em cana.
Por trás do projeto está a Associação Brasileira de Esteticistas e Cosmetólogos, que representa um setor que fatura mais que a indústria farmacêutica nacional.
A proposta também exige estágio obrigatório, o que teoricamente profissionalizaria a área. Mas levanta a questão: estágio onde? Em hospitais públicos que mal têm gaze?
O absurdo em números
Vamos aos fatos:
- Brasil tem deficit de 54 mil médicos, segundo o CFM
- Tempo médio de espera por cirurgia no SUS: 2 anos
- Investimento público em saúde per capita: R$ 1.500/ano
- Sessão de harmonização facial em clínica de luxo: R$ 3.000
Enquanto isso, parlamentares com patrimônios milionários — muitos declarados, outros nem tanto — defendem que aplicar botox seja reconhecido como atividade de saúde.
Quem está por trás
O projeto tramita em comissões dominadas por deputados do centrão. Nomes que transitam entre a defesa do livre mercado e contratos polpudos com a máquina pública.
A bancada da saúde privada, como é conhecida nos corredores de Brasília, movimenta R$ 250 bilhões anuais. Esteticistas profissionalizados abririam portas para credenciamento em planos de saúde.
Tradução: seu plano básico não cobre mamografia, mas poderia cobrir microagulhamento.
O conflito real
De um lado, profissionais que trabalham com estética e querem reconhecimento. Legítimo.
Do outro, conselhos de medicina e fisioterapia que veem invasão de competências. Também legítimo.
No meio, o Congresso fazendo o que faz de melhor: criar categorias, regulamentações e — claro — novas fontes de arrecadação via taxas e contribuições profissionais.
A Ordem dos Advogados do Brasil já se posicionou contra pontos do projeto, especialmente a criminalização de fiscalizações. "Cria proteção penal excessiva para uma categoria", diz nota técnica da OAB.
Quanto custa a beleza
Os ricos do Congresso sabem o valor de uma boa aparência. Gastos com "consultoria de imagem" de parlamentares já ultrapassaram R$ 15 milhões nos últimos quatro anos, segundo dados da Câmara.
Agora querem garantir que seus profissionais de confiança tenham status de "saúde". Conveniente.
Enquanto isso, a fila do SUS não anda. Mas a indústria da beleza, essa sim, está em plena forma.
"É transformar luxo em necessidade básica. E cobrar do povo por isso."
O projeto deve ser votado ainda neste semestre. Provavelmente com o mesmo entusiasmo com que votam aumentos próprios.