Enquanto ricos do Congresso têm ar-condicionado, DF sufoca
Brasília sufoca. Pelo terceiro dia consecutivo, o Distrito Federal amarga alerta laranja do Inmet para baixa umidade. A previsão? Umidade relativa do ar pode despencar para 20% entre meio-dia e 18h desta terça-feira (21/7).
Enquanto isso, dentro do Congresso Nacional, a temperatura é outra. Literalmente.
Deputados e senadores — cujo patrimônio médio declarado ultrapassa R$ 2,3 milhões — trabalham em gabinetes climatizados 24 horas por dia. Ar-condicionado central. Água mineral gelada. Até umidificadores importados em alguns gabinetes VIP.
O contraste é brutal
Lá fora, o brasiliense comum enfrenta condições típicas de deserto do Saara. A recomendação oficial do Instituto Nacional de Meteorologia é clara: beba muita água, evite exercícios ao ar livre, use umidificador se tiver um em casa.
Se tiver.
Porque umidificador não é exatamente item de cesta básica para quem ganha salário mínimo. Custa entre R$ 150 e R$ 800. Mais que a conta de luz de muita gente.
Quanto custa climatizar o poder
A Câmara dos Deputados gasta anualmente cerca de R$ 18 milhões só com refrigeração e climatização. O Senado, outros R$ 12 milhões. Total: R$ 30 milhões por ano para manter os ricos do Congresso confortáveis.
Daria para comprar 200 mil umidificadores básicos. Ou instalar bebedouros em cada esquina de Brasília.
Mas não. O dinheiro público evapora — literalmente — em conforto para quem já tem tudo.
Alerta vale até quarta
O Inmet mantém o aviso até pelo menos quarta-feira (22/7). As condições são consideradas perigosas para saúde, especialmente para:
- Crianças e idosos
- Pessoas com problemas respiratórios
- Trabalhadores de rua — ambulantes, entregadores, garis
- Quem não pode se dar ao luxo de ficar em ambiente climatizado
A umidade de 20% é a mesma do deserto do Atacama. A Organização Mundial da Saúde recomenda mínimo de 60% para conforto e saúde.
Saúde pública em risco
Hospitais públicos do DF já registram aumento de 35% em atendimentos por problemas respiratórios desde quinta-feira passada. Fila no pronto-socorro cresce. Falta soro. Falta leito.
Dentro do Palácio do Buriti, sede do GDF, a temperatura é mantida em exatos 22 graus. Umidade controlada em 55%.
O governador Ibaneis Rocha — patrimônio declarado de R$ 4,7 milhões — decretou "estado de atenção". Mas não abriu os prédios públicos climatizados para a população se refrescar.
Em Nova York, durante ondas de calor, bibliotecas e prédios públicos viram abrigos climáticos. Aqui, você que se vire com seus 20% de umidade.
Recomendações oficiais (para quem pode seguir)
O Inmet e a Defesa Civil recomendam: hidrate-se constantemente, use soro no nariz, evite exposição ao sol entre 10h e 16h, mantenha ambientes umidificados.
Tudo certo. Mas hidratar-se constantemente quando a conta de água já está difícil de pagar? Usar umidificador quando mal tem dinheiro para o gás?
São recomendações de primeiro mundo para um país onde o Congresso gasta R$ 30 milhões por ano em ar-condicionado enquanto o povo respira poeira.
Brasília arde. Mas não de vergonha.