Ricos do Congresso querem punir presos que aparecem em foto

Ricos do Congresso querem punir presos que aparecem em foto
Foto: Congresso em Foco

Um deputado ganha R$ 33.763 por mês. Posa para foto toda semana. Selfie, TikTok, Instagram, outdoor de campanha. Quanto mais exposição, melhor.

Um preso ganha zero. Se posar para uma foto, agora pode perder remição de pena, visita da família e progressão de regime.

Bem-vindo ao Brasil dos ricos do Congresso.

O Projeto que Criminaliza a Imagem

O relator do Projeto de Lei 5.062/2024 acaba de dar parecer favorável à proposta que equipara "posar para fotos" dentro de presídios ao uso ativo de celular. Na prática: falta grave automática.

Não importa se o preso nem tocou no aparelho. Não importa se foi coagido por outro detento. Ficou na foto? Punido.

A justificativa oficial é combater a "ostentação" de facções criminosas nas redes sociais. O problema? A lei não distingue contexto. Uma foto com a mãe na visita pode ter o mesmo peso de um vídeo de facção.

Quem Está Por Trás

O projeto tramita sob relatoria de parlamentares que defendem o endurecimento penal como bandeira eleitoral. Os mesmos que votam seus próprios aumentos salariais, têm foro privilegiado e auxílios que somam mais de R$ 10 mil mensais além do salário.

Nenhum deles propôs limitar selfies de autoridades com investigados. Nenhum sugeriu punir deputados que posam ao lado de empresários sob suspeita. A seletividade é cirúrgica.

O Negócio Por Trás da Grade

Enquanto isso, o sistema prisional brasileiro movimenta bilhões. Empresas terceirizadas faturam com alimentação, segurança privada, monitoramento eletrônico. Quanto mais presos, mais contratos.

A população carcerária brasileira ultrapassou 830 mil pessoas. Somos o terceiro país que mais prende no mundo. E seguimos criando novos tipos penais.

Cada detento custa aos cofres públicos cerca de R$ 2.400 por mês — menos que um deputado gasta em cota parlamentar de correio.

A Conta que Não Fecha

O Brasil tem déficit de 230 mil vagas no sistema prisional. Superlotação em 95% das unidades. Rebeliões constantes. Organizações criminosas que se fortalecem justamente porque o Estado está ausente.

E a resposta dos ricos do Congresso? Punir quem aparece em foto.

Não há no projeto: verba para ampliação de presídios, contratação de agentes, bloqueio efetivo de sinal de celular, inteligência para rastrear facções.

Há apenas: mais uma falta grave. Mais um motivo para manter gente presa por mais tempo. Mais combustível para o discurso eleitoral de "lei e ordem".

Enquanto Isso, nos Gabinetes...

Os parlamentares seguem posando. Stories no Congresso. Fotos em aviões particulares. Jantares com empresários. Eventos com cachê de R$ 50 mil.

Tudo registrado, publicado, curtido.

Para eles, exposição é marketing. Para o preso, tornou-se crime.

Esse é o retrato do Brasil em 2025: dois pesos, duas medidas. Uma para quem manda. Outra para quem obedece atrás das grades.

Fernando Andrade Villela

Fernando Andrade Villela

Investigador financeiro. Cobre offshores, patrimônio declarado vs. real, e o cruzamento entre política e mercado.