Deputada quer banir pornô do esporte enquanto Congresso ignora salários
Enquanto parlamentares do Congresso Nacional embolsam R$ 44 mil mensais — fora os penduricalhos que elevam o pacote a mais de R$ 100 mil —, a deputada Sâmia Bomfim (PSOL-SP) escolheu sua batalha: banir a pornografia do esporte brasileiro.
O projeto de lei apresentado pela parlamentarista paulista quer proibir empresas e plataformas de conteúdo adulto de patrocinar clubes, atletas e competições esportivas no país. Multa prevista: até R$ 10 milhões por infração.
O timing chama atenção. Nos últimos dois anos, clubes de futebol e atletas independentes começaram a fechar contratos milionários com plataformas de conteúdo adulto — um mercado que movimenta bilhões globalmente e que encontrou no Brasil terreno fértil.
O dinheiro que incomoda
A proposta de Bomfim mira especialmente as chamadas "plataformas de conteúdo adulto" que têm investido pesado no marketing esportivo. O texto inclui proibição expressa para empresas ou plataformas digitais ligadas à produção e divulgação de material pornográfico.
Traduzindo: nada de logos em camisas, placas de estádio ou posts patrocinados de atletas.
A justificativa oficial fala em "proteção da imagem do esporte" e "valores éticos". Não menciona, porém, que muitos clubes pequenos e médios — aqueles sem acesso aos patrocínios tradicionais — encontraram nesse nicho uma fonte de receita real.
Quem ganha, quem perde
Do lado dos apoiadores da medida: entidades religiosas, grupos conservadores e parte da sociedade civil que vê incompatibilidade entre esporte — especialmente aquele voltado ao público jovem — e indústria pornográfica.
Do outro lado: clubes endividados, atletas de modalidades menos populares e plataformas que viram no Brasil um dos maiores mercados consumidores do mundo para conteúdo adulto.
Os números não mentem. O Brasil é o segundo maior consumidor de pornografia do planeta. E as plataformas sabem disso. Investir em visibilidade aqui não é caridade — é estratégia de mercado.
O Congresso e suas prioridades
Enquanto o projeto tramita, os ricos do Congresso seguem blindados por salários estratosféricos e benefícios que incluem:
- Auxílio-moradia de R$ 4.253, mesmo para quem já tem imóvel em Brasília
- Cota parlamentar que chega a R$ 50 mil mensais para deputados
- Verba de gabinete generosa o suficiente para contratar familiares em cargos fantasmas
- Aposentadoria integral após mandatos curtos
A deputada Sâmia, vale lembrar, integra essa mesma estrutura. Seu salário bruto oficial: R$ 44.008,52. Fora as cotas.
Nada disso consta do projeto que quer moralizar o esporte brasileiro.
O elefante na sala
A questão real não aparece no texto legal: quem define o que é "conteúdo adulto aceitável"? Cervejarias podem. Casas de apostas também. Mas plataformas de conteúdo explícito, não.
O critério parece arbitrário. E conveniente.
Enquanto isso, o cidadão médio brasileiro — que ganha R$ 2.800 mensais segundo o IBGE — assiste de camarote a esse teatro moral protagonizado por uma elite parlamentar que vive em outro planeta financeiro.
A lei pode até passar. Mas a hipocrisia já está aprovada por unanimidade.