Sebrae fatura R$ 6 bi e agora vende playlist pra patrão

Sebrae fatura R$ 6 bi e agora vende playlist pra patrão
Foto: Metrópoles

Enquanto o brasileiro comum rala por R$ 1.412 de salário mínimo, o Sebrae fechou 2023 com orçamento de R$ 6,2 bilhões. E qual a prioridade agora? Uma playlist no Spotify.

Batizado de "Nosso Canto do Sebrae", o projeto musical compila canções sugeridas por donos de micro e pequenos negócios. De Seu Jorge a Raul Seixas, a seleção embala quem "empreende" — o verbo favorito de quem transforma desemprego em narrativa motivacional.

O negócio por trás do negócio

O Sebrae faz parte do chamado Sistema S, aquele conjunto de entidades bancadas por contribuição obrigatória sobre a folha de pagamento das empresas. Traduzindo: quem paga é o setor produtivo, mas quem decide o que fazer com a grana são dirigentes indicados politicamente.

A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) comanda o Sebrae. Seu presidente, José Roberto Tadros, acumula salário que faria qualquer "pequeno empreendedor" chorar — enquanto promove lives e agora playlists.

Spotify pra patrão, conta pra pobre

A iniciativa musical surge num momento curioso. O governo Lula discute reforma do Sistema S. A pasta da Gestão quer mais transparência e menos gordura. Afinal, são R$ 17 bilhões anuais recolhidos compulsoriamente.

Enquanto isso, o Sebrae investe em curadoria de música sertaneja e rock nacional. A playlist inclui "Começar de Novo" (Edson e Hudson) e "Metamorfose Ambulante" (Raul Seixas). Ironia ou manual de sobrevivência do trabalho informal?

Quem realmente manda

O Sistema S opera numa zona cinzenta: dinheiro privado obrigatório, gestão paraestatal, fiscalização frouxa. Os presidentes das entidades ganham como executivos de multinacional, mas prestam contas como ONG.

  • Sebrae: R$ 6,2 bilhões de orçamento anual
  • Senai: R$ 4,8 bilhões
  • Sesc: R$ 3,2 bilhões
  • Salário de dirigentes: até R$ 60 mil mensais

Enquanto os "empreendedores" — eufemismo para desempregados com CNPJ — lutam pra pagar boleto, a elite do Sistema S decide entre montar playlist ou financiar estudo sobre "tendências do mercado".

A conta que não fecha

O discurso oficial celebra os 12 milhões de pequenos negócios no Brasil. Mas omite o contexto: 70% dos MEIs faturam menos de R$ 2 mil mensais. São ex-CLTs que viraram "patrões" de si mesmos, sem férias, sem 13º, sem direito a playlist que cure precariedade.

O Sebrae oferece consultorias e capacitações. Algumas úteis, muitas decorativas. A playlist musical entra na segunda categoria — entretenimento corporativo pra quem financia involuntariamente a própria autoajuda.

No fim, "Nosso Canto" revela quem realmente manda: uma estrutura bilionária, blindada politicamente, que transforma arrecadação compulsória em marketing feel-good enquanto o "empreendedor" segue quebrando.

A trilha sonora do Brasil real não está no Spotify. Está no barulho da maquininha de cartão que não apita, na nota fiscal que não sai, no sonho de CLT que virou saudade.

Isabela Guimarães Coutinho

Isabela Guimarães Coutinho

Editora de perfis. Escreve retratos de personagens do poder — do bilionário ao aliado invisível do Planalto.