Senador bloqueia embaixadores de Trump por US$ 7 bilhões

Sete bilhões de dólares congelados. Milhões de vidas em risco. E um senador republicano disposto a travar o próprio presidente.

John Cornyn, do Texas, acaba de colocar dois embaixadores indicados por Donald Trump na geladeira. O motivo? A Casa Branca segura fundos do PEPFAR — o programa bilionário de combate à AIDS e HIV criado por George W. Bush em 2003.

O recado é claro: sem dinheiro para remédios na África, sem embaixadores nos postos.

O jogo de poder por trás da verba

O PEPFAR distribui tratamento antirretroviral para mais de 20 milhões de pessoas em dezenas de países. É o maior programa americano de saúde global. Custa aos cofres dos EUA cerca de US$ 7 bilhões por ano.

Trump congelou os repasses em janeiro, alegando revisão de eficiência. Cornyn — senador veterano que já ocupou posições de liderança no partido — não engoliu.

"A única forma que parece funcionar com vocês é esta", disse Cornyn em referência ao bloqueio das nomeações diplomáticas. Os cargos emperrados são para embaixadas-chave na estratégia republicana.

Quanto ganha quem decide essas coisas

Senadores americanos como Cornyn recebem US$ 174 mil anuais — cerca de R$ 1 milhão por ano. O salário do Congresso dos EUA está congelado desde 2009, mas membros da liderança ganham mais.

Para 2026, há pressão para reajuste. Seria o primeiro aumento em quase duas décadas. Enquanto isso, o salário médio do americano está em US$ 59 mil.

Embaixadores nomeados ganham entre US$ 125 mil e US$ 187 mil, dependendo do posto. Mas o prestígio político — e as conexões — valem muito mais.

O racha entre republicanos

Cornyn não está sozinho. Outros senadores republicanos manifestaram desconforto com o congelamento do PEPFAR. O programa tem apoio bipartidário histórico e foi bandeira de Bush filho, ainda popular entre conservadores tradicionais.

Trump, por outro lado, corteja a ala radical do partido — que vê programas internacionais como desperdício de dinheiro do contribuinte americano.

O embate expõe uma fissura: republicanos do establishment versus trumpistas puros. E Cornyn, que já foi número dois do Senado, tem músculo para travar nomeações.

O que está em jogo

Sem o PEPFAR funcionando a pleno vapor, países africanos e do Caribe ficam sem remédios. A interrupção pode gerar crise humanitária e desestabilizar regiões onde EUA e China disputam influência.

Para Trump, ceder a Cornyn é mostrar fraqueza. Para o senador texano, é questão de princípio — e também de manter relevância num partido cada vez mais dominado pelo chefe.

Os dois embaixadores bloqueados aguardam. As ONGs pressionam. E os US$ 7 bilhões seguem parados.

Enquanto isso, o Congresso americano debate seu próprio salário para 2026.

Isabela Guimarães Coutinho

Isabela Guimarães Coutinho

Editora de perfis. Escreve retratos de personagens do poder — do bilionário ao aliado invisível do Planalto.