Senador democrata propõe saúde grátis para crianças nos EUA

Enquanto 73 milhões de crianças americanas dependem de planos de saúde caros ou simplesmente não têm cobertura, o senador Andy Kim (Democrata-Nova Jersey) anunciou nesta terça-feira um projeto audacioso: saúde gratuita e universal para todos os menores de 26 anos nos Estados Unidos.

O programa batizado de MediKids inscreveria automaticamente toda criança ao nascer. Sem burocracia, sem análise de renda familiar, sem mensalidades.

Kim não é exatamente um nome tradicional do Congresso americano. Eleito em 2024, o democrata de 42 anos acumulou patrimônio estimado entre US$ 500 mil e US$ 1,5 milhão antes de entrar para o Senado — números modestos para os padrões de Washington, onde senadores costumam ostentar fortunas de dezenas de milhões.

O que está por trás do MediKids

A proposta expande o Medicare, programa federal que hoje atende apenas idosos acima de 65 anos. Com o MediKids, crianças teriam acesso garantido a:

  • Consultas médicas sem copagamento
  • Internações hospitalares cobertas
  • Medicamentos subsidiados
  • Atendimento odontológico e oftalmológico

"Os democratas precisam trazer ideias novas para avançar a conversa sobre saúde", declarou Kim ao apresentar o projeto. A frase soa como recado direto à ala moderada do próprio partido, que teme propostas vistas como "socialistas demais".

O timing não é casual. Kim assumiu a cadeira no Senado há poucos meses, substituindo Bob Menendez — que renunciou em escândalo de corrupção com barras de ouro escondidas em casa e um patrimônio que superava US$ 2 milhões.

Quanto custa a utopia?

Kim não divulgou estimativa de custos. Analistas conservadores já calculam algo entre US$ 100 bilhões e US$ 150 bilhões anuais — dinheiro que precisaria sair de algum lugar.

Republicanos atacaram imediatamente. "Mais um programa insustentável que vai quebrar a Previdência", disparou um assessor do senador Ted Cruz no Twitter, minutos após o anúncio.

A batalha está desenhada: democratas progressistas contra republicanos fiscalistas, com moderados de ambos os lados no meio do fogo cruzado.

Quem ganha, quem perde

Se aprovado — cenário improvável com Câmara controlada por republicanos — o MediKids beneficiaria principalmente:

  • Famílias de baixa renda que pagam até 20% da renda em planos de saúde
  • Trabalhadores autônomos sem cobertura empresarial
  • Imigrantes legalizados cujos filhos hoje ficam descobertos

Do lado dos perdedores: seguradoras privadas de saúde, que faturam US$ 1,2 trilhão por ano nos EUA e veriam o mercado infantil evaporar da noite para o dia.

Não por acaso, lobistas do setor já circulam pelos corredores do Capitólio. Empresas como UnitedHealth e Anthem doaram US$ 43 milhões para campanhas congressuais em 2024 — dinheiro que agora cobra seu preço.

Jogo de cena ou convicção?

Céticos veem no MediKids pura jogada de marketing político. Kim se posiciona como progressista para 2028, quando pode tentar reeleição ou até mirar postos maiores.

Mas o senador tem biografia que sustenta o discurso: filho de imigrantes coreanos, foi o primeiro asiático-americano eleito pelo Congresso de Nova Jersey. Cresceu em família de classe média que dependia de programas públicos.

O projeto agora segue para análise na Comissão de Finanças do Senado. Ali, 13 senadores com patrimônio médio de US$ 8 milhões decidirão se crianças pobres merecem o mesmo acesso à saúde que seus próprios filhos sempre tiveram.

A resposta deve vir em algumas semanas. O cinismo sugere apostar contra.

Isabela Guimarães Coutinho

Isabela Guimarães Coutinho

Editora de perfis. Escreve retratos de personagens do poder — do bilionário ao aliado invisível do Planalto.