Senadora bilionária quer app de creche pública
Enquanto mães pobres dormem em filas para conseguir vaga em creche pública, uma senadora com patrimônio milionário apresentou projeto para criar um aplicativo que mapeia essas vagas. A ironia: quem propõe nunca precisou de creche do governo.
Laura Carneiro (PSD-RJ), da dinastia política mais tradicional do Rio, quer criar uma plataforma digital nacional para mostrar onde tem — ou não tem — vaga em creche pública no Brasil.
O dinheiro por trás da proposta
A senadora integra uma das famílias mais ricas da política fluminense. Filha do ex-deputado Nelson Carneiro e viúva do empresário Paulo César Farias, o PC Farias, Laura acumulou patrimônio declarado que inclui imóveis e investimentos. O tipo de pessoa cujos netos frequentam escolinhas particulares que custam mais que um salário mínimo por mês.
Agora ela quer mapear "a oferta, a ocupação, a disponibilidade e as filas de espera" das creches públicas brasileiras. Informação útil? Sem dúvida. Mas que resolve o problema de falta de vaga? Zero.
App não constrói creche
O projeto de lei pretende obrigar o governo federal a criar e manter uma plataforma digital com dados em tempo real de todas as creches públicas do país. Pais poderiam consultar vagas disponíveis, fazer pré-cadastro e acompanhar sua posição na fila.
Bonito no papel. Mas tem um detalhe: o Brasil tem déficit de 2,4 milhões de vagas em creches, segundo o Ministério da Educação. Criar um site para mostrar que não tem vaga é como fazer app para mostrar que o paciente morreu na fila do SUS.
Quem paga a conta
A senadora não especificou quanto custaria desenvolver e manter essa plataforma nacional integrada. Especialistas em tecnologia pública estimam que sistemas desse tipo consomem milhões em licitações, desenvolvimento e manutenção anual.
Dinheiro que poderia construir creches de verdade.
O abismo social
Laura Carneiro recebe R$ 44 mil de salário bruto como senadora, fora verbas de gabinete e auxílios. Uma mãe que precisa de creche pública geralmente ganha um salário mínimo — R$ 1.412 — quando tem emprego formal.
A distância entre quem propõe e quem precisa da política pública é do tamanho do Brasil.
O projeto agora tramita no Senado. Se aprovado, seguirá para a Câmara dos Deputados. Enquanto isso, mães continuam na fila real — não a digital — por uma vaga que pode nunca aparecer no app.
"Transparência é importante, mas creche é urgente", resume uma coordenadora de movimento de mães em São Paulo que prefere não se identificar.
No fim, o patrimônio dos senadores segue intocável. E a fila da creche, imóvel.