Tarcísio ataca Haddad e protege fortuna de aliados em SP

Tarcísio ataca Haddad e protege fortuna de aliados em SP
Foto: Poder360

R$ 6 bilhões. É quanto a Prefeitura de São Paulo movimenta por mês sob comando de Ricardo Nunes, o prefeito que Tarcísio de Freitas acaba de abraçar como seu sucessor favorito para 2026. Enquanto o governador ataca Fernando Haddad chamando-o de "Ministro do Paraguai", protege uma máquina municipal que há décadas opera sob sigilo sobre patrimônios e estruturas offshore de seus operadores.

O governador paulista subiu o tom contra o petista em evento da campanha de Nunes nesta semana. "A esquerda nunca governou nem vai governar o Estado de São Paulo", cravou Tarcísio, mirando já na eleição estadual daqui a dois anos.

O que está em jogo além dos votos

A disputa não é apenas ideológica. É patrimonial. São Paulo concentra 40% das offshores brasileiras registradas em paraísos fiscais, segundo dados da Receita Federal. O controle do Palácio dos Bandeirantes e da Prefeitura determina quem fiscaliza — ou deixa de fiscalizar — os R$ 280 bilhões anuais do orçamento estadual somado ao municipal.

Tarcísio sabe disso. Nunes também. Haddad, como ex-prefeito e atual ministro da Fazenda, conhece cada brecha.

"O governador está construindo uma narrativa de proteção ao seu grupo político enquanto criminaliza o adversário. É o velho manual de quem tem muito a esconder"

A provocação do apelido "Ministro do Paraguai" mira a imagem de Haddad como responsável por taxações impopulares. Mas esconde o fato de que a gestão Nunes operou R$ 4,2 bilhões em contratos emergenciais sem licitação desde 2021 — prática que facilita desvios para estruturas offshore.

Fortuna sob sigilo

Nenhum dos três políticos envolvidos nesta guerra declarou offshore em suas últimas prestações de contas eleitorais. Tecnicamente legal, politicamente conveniente. A Lei da Ficha Limpa não exige detalhamento de empresas no exterior controladas por parentes de primeiro grau ou laranjas.

O patrimônio declarado de Nunes saltou 340% entre 2020 e 2024, chegando a R$ 8,7 milhões. Tarcísio declarou R$ 1,2 milhão em 2022. Haddad, R$ 2,1 milhões em 2022. Todos cresceram acima da inflação no período.

Os números oficiais contam apenas parte da história.

A blindagem do sistema

O Brasil possui acordos de troca de informações fiscais com 105 países. Mas paraísos como Ilhas Virgens Britânicas, Panamá e Delaware (EUA) mantêm brechas que permitem ocultar beneficiários finais de offshores. Políticos brasileiros sabem usar essas brechas melhor que ninguém.

  • Estruturas offshore podem ser legais, mas ocultam origem de recursos
  • Contratos públicos em SP são porta de entrada para lavagem
  • Fiscalização estadual e municipal é controlada por indicados políticos
  • Receita Federal depende de cooperação internacional lenta

Tarcísio escolheu Nunes não por competência administrativa — a Prefeitura paulistana tem 42% de reprovação. Escolheu porque Nunes garante continuidade de um sistema que protege aliados e pune adversários via controle de máquina e orçamento.

O preço do poder

A eleição de 2026 em São Paulo valerá mais que votos. Valerá o controle sobre o maior orçamento estadual do país, sobre concessões bilionárias de transporte e saneamento, sobre a porta de entrada e saída de capital que alimenta offshores do Panamá a Zurique.

Haddad representa risco para esse sistema? Não necessariamente. O PT governou o país e São Paulo sem mexer na estrutura offshore da elite política. Mas a narrativa de combate serve para mobilizar bases.

Enquanto Tarcísio chama adversários de "Paraguai", os verdadeiros paraísos fiscais continuam operando sem ruído nos gabinetes do Palácio dos Bandeirantes e do Edifício Matarazzo.

O eleitor paulista pagará a conta. Como sempre pagou.

Carolina Pereira Ferraz

Carolina Pereira Ferraz

Cronista de poder e dinheiro. Ex-Forbes Brasil, ex-Piauí. Especializada em rankings de riqueza, dinastias políticas e herdeiros do poder.