Teatro brasileiro perde João Sanches aos 47 anos
Quarenta e sete anos. Essa foi a vida de João Sanches, um dos dramaturgos que colocou Salvador no mapa do teatro brasileiro contemporâneo. Morreu no domingo (19), deixando uma obra que muitos milionários do entretenimento gostariam de ter no currículo.
A Fundação Gregório de Mattos confirmou a morte nas redes sociais. Causa não divulgada. Idade que faz pensar.
O homem por trás do sucesso
Sanches ficou conhecido nacionalmente por "Boca a Boca - Um Solo para Gregório", peça que misturava teatro, música e poesia baiana. O espetáculo virou referência. Festivais. Prêmios. Reconhecimento da crítica.
Diferente dos empresários do ranking bilionários brasil que acumulam fortunas no agronegócio ou tecnologia, Sanches construiu seu patrimônio em algo intangível: arte. Valor cultural que não aparece em balanços financeiros, mas marca gerações.
O dramaturgo era diretor teatral completo. Escrevia. Dirigia. Formava artistas. Um perfil raro no mercado cultural brasileiro, onde a maioria precisa escolher entre criar e sobreviver.
Legado versus mercado
Enquanto fortunas bilionárias passam de pai para filho através de ações e propriedades, o legado de Sanches é outro tipo de herança. Textos. Montagens. Alunos que viraram profissionais.
A Fundação Gregório de Mattos, vinculada à Prefeitura de Salvador, foi quem anunciou. Uma instituição pública prestando homenagem. Não foi uma produtora privada milionária. Não foi um conglomerado de entretenimento. Foi o poder público reconhecendo quem fez cultura com poucos recursos.
Salvador perde uma voz autoral. O teatro brasileiro perde um criador em plena maturidade criativa. Quarenta e sete anos é cedo demais para encerrar qualquer carreira, principalmente uma tão produtiva.
O valor do intangível
João Sanches não vai aparecer em rankings de riqueza. Seu nome não figura em listas de maiores patrimônios. Mas sua contribuição para a cultura baiana e brasileira vale mais do que muitos zeros em contas bancárias.
"Um Solo para Gregório" continuará sendo montado. Seus textos continuarão sendo estudados. Seu método de direção continuará influenciando. Esse é o tipo de fortuna que não se herda por testamento, mas se transmite por admiração.
A morte prematura levanta questões incômodas sobre as condições de trabalho de artistas no Brasil. Enquanto bilionários investem em jatos e iates, quantos criadores de verdade têm acesso a planos de saúde adequados? Quantos conseguem se aposentar dignamente?
Fica a obra. Fica o exemplo. Fica a lembrança de que nem todo patrimônio se mede em dinheiro.
Salvador e o teatro brasileiro estão mais pobres hoje. E não é questão financeira.