Técnico morto carbonizado: quem manda no Brasil ignora

Técnico morto carbonizado: quem manda no Brasil ignora
Foto: Metrópoles

Wallace Serodio Prado, 34 anos, saiu de casa na quinta-feira (30/7) para instalar um portão. Trabalho honesto. Pagamento combinado. Nunca mais voltou. Dias depois, seu corpo foi encontrado carbonizado.

Enquanto bilionários brasileiros movimentam R$ 1,5 trilhão em patrimônio — segundo ranking da Forbes — um técnico de portões vira cinzas após um dia comum de trabalho. Ninguém viu. Ninguém ouviu. Ninguém impediu.

O Desaparecimento

Wallace concluiu o serviço em uma residência. Recebeu o pagamento. Despediu-se do cliente. E entrou para as estatísticas brasileiras de desaparecidos — 80 mil pessoas por ano, segundo dados oficiais.

A família acionou a polícia imediatamente. Procedimento padrão. Boletim de ocorrência registrado. Investigação iniciada.

Três dias de angústia. Três dias de ligações sem resposta. Três dias de porta fechada.

O Corpo Carbonizado

Investigadores localizaram o corpo em área isolada. Carbonizado. Irreconhecível sem perícia técnica.

A identificação dependeu de exames complementares. Família destruída aguarda explicações.

Polícia investiga motivo do crime. Linha de latrocínio não está descartada. Testemunhas estão sendo ouvidas.

Quem Manda Aqui?

Brasil tem 62 bilionários. Patrimônio somado ultrapassa US$ 300 bilhões. Segurança privada. Condomínios fechados. Carros blindados.

Do outro lado: 33 milhões de brasileiros na pobreza. Trabalhadores como Wallace. Técnicos. Entregadores. Motoristas. Prestadores de serviço.

Eles instalam os portões das mansões. Mas não têm portão em casa.

Eles entregam comida gourmet. Mas jantam marmita fria.

Eles dirigem carros de luxo alheios. Mas vão de ônibus para casa — quando chegam.

O Brasil de Dois Andares

Técnico assassinado vira nota de rodapé. Celebridade roubada vira capa de jornal.

Assassinato de trabalhador gera inquérito comum. Furto em bairro nobre mobiliza delegacia especial.

A conta é simples: quanto você vale define quanto investigam sua morte.

Wallace valia o suficiente para consertar portões eletrônicos. Programar sistemas. Resolver problemas técnicos.

Mas não valia proteção policial preventiva. Não valia câmeras de segurança públicas. Não valia patrulhamento ostensivo.

Quem Responde?

Família aguarda respostas. Polícia segue investigação. Autoridades prometem justiça.

Promessas custam zero. Investigação custa orçamento. Justiça custa vontade política.

Brasil gasta R$ 110 bilhões por ano em segurança pública. Dinheiro que não impediu Wallace de ser carbonizado após um dia de trabalho.

Quem manda no Brasil já decidiu: existe brasileiro que importa. E existe brasileiro descartável.

Wallace Serodio Prado, 34 anos, técnico de portões, deixa família, amigos e uma pergunta: quantos mais antes de alguém responder?

Isabela Guimarães Coutinho

Isabela Guimarães Coutinho

Editora de perfis. Escreve retratos de personagens do poder — do bilionário ao aliado invisível do Planalto.