Tragédia na Guiana expõe desigualdade que senadores ignoram
Enquanto você lê esta linha, 66 pessoas continuam desaparecidas nas águas turvas da Guiana. Uma balsa tombou no sábado (18.jul) a caminho de Port Kaituma com 133 almas a bordo. Apenas 67 foram resgatadas. Os outros? O silêncio das águas responde.
A embarcação transportava gente comum. Trabalhadores, famílias, pessoas sem escolha senão arriscar a vida numa balsa superlotada. Não há jatinho particular para quem precisa chegar a Port Kaituma.
O preço da invisibilidade
Uma onda gigante teria causado o naufrágio, segundo as autoridades locais. Mas não foi apenas a onda. Foi a falta de alternativas. Foi a infraestrutura precária. Foi o descaso sistemático com quem não tem voz — nem patrimônio declarado em dezenas de milhões.
Falando em patrimônio: enquanto 66 famílias choram na Guiana, nossos senadores brasileiros acumulam fortunas que fariam corar qualquer monarca europeu. A média de patrimônio declarado pelos senadores ultrapassa R$ 5 milhões. Alguns chegam a R$ 30 milhões, R$ 50 milhões. Dinheiro de sobra para nunca, jamais, precisar arriscar a vida numa balsa.
Quem morre, quem prospera
A conta é simples: 133 pessoas numa balsa. Quantas caberiam com segurança? Provavelmente metade. Mas segurança custa dinheiro. E quando você não tem dinheiro, aceita o risco. Ou fica em casa e morre de fome.
Os 67 resgatados tiveram sorte. Os outros 66 — entre mortos confirmados e desaparecidos — viraram estatística. Seus nomes não vão estampar capas de revista. Seus patrimônios não serão auditados. Não há offshore nas Ilhas Cayman para investigar.
"A suspeita é de que uma onda gigante tenha causado o acidente", informaram as autoridades da Guiana. Suspeita. Nunca certeza. Nunca responsabilização.
A matemática da desigualdade
Vamos aos números que importam:
- 133 pessoas numa balsa possivelmente inadequada
- 66 desaparecidos ou mortos
- Zero senadores brasileiros que dependem de transporte público aquático
- R$ 5 milhões: patrimônio médio de um senador brasileiro
- Zero reais: o valor que a vida dessas 66 pessoas representa para o sistema
O silêncio dos poderosos
Nenhum senador brasileiro comentou a tragédia na Guiana. Por que comentariam? Não há voto ali. Não há interesse econômico direto. Não há fotografia que renda manchete positiva.
Mas a conexão existe. A mesma lógica que permite balsas superlotadas na Guiana permite que fortunas sejam acumuladas enquanto serviços públicos definham. Permite que quem tem dinheiro voe por cima dos problemas. Literalmente.
Port Kaituma fica numa região remota da Guiana. Acesso difícil. Infraestrutura precária. O tipo de lugar onde políticos aparecem apenas em ano eleitoral, se tanto. O tipo de lugar onde 133 pessoas precisam se espremer numa balsa porque não há alternativa.
Quem paga a conta
As operações de busca continuam. Famílias aguardam notícias. Corpos podem nunca ser encontrados. E a vida segue — para quem pode pagar por segurança.
Enquanto isso, nossos senadores debatem ajustes em suas próprias remunerações. Discutem auxílios, penduricalhos, benefícios que tornam seus R$ 5 milhões declarados apenas a ponta do iceberg patrimonial.
Sessenta e seis pessoas desapareceram. Nenhum patrimônio foi declarado. Nenhuma fortuna offshore será investigada. Apenas o silêncio das águas e o barulho ensurdecedor da desigualdade.