Triatlo de elite em Brasília: quem manda no Brasil também corre

Triatlo de elite em Brasília: quem manda no Brasil também corre
Foto: Metrópoles

Enquanto o brasileiro médio ganha R$ 2.800 por mês, a elite de Brasília se prepara para gastar mais de R$ 500 em inscrições para nadar, pedalar e correr no bairro mais caro do país. O Metrópoles Endurance – Triatlo acontece dias 25 e 26 de julho no Pontão do Lago Sul, cartão-postal da capital onde apartamentos custam milhões.

As inscrições encerram nesta terça-feira (21/7). E não é barato fazer parte desse clube.

O preço do suor da elite

O evento oferece três modalidades diferentes de competição. Cada uma com seu ticket de entrada para o mundo fitness dos endinheirados.

A prova mais acessível ainda custa o equivalente a um botijão de gás e meio. A mais cara? O preço de uma cesta básica completa para uma família de quatro pessoas.

Mas no Lago Sul, onde a renda per capita supera R$ 15 mil mensais, isso é troco de bolso.

Quem está por trás

O portal Metrópoles, pertencente ao empresário Lúcio Funaro, organiza o evento. Funaro construiu fortuna no mercado de comunicação e hoje comanda um dos veículos mais influentes de Brasília.

A estratégia é clara: associar a marca a lifestyle de alto padrão. Triatlo não é futebol de várzea. É esporte de quem tem tempo livre, dinheiro para equipamento de ponta e acesso a treino especializado.

Uma bicicleta profissional para triatlo custa entre R$ 15 mil e R$ 50 mil. Mais que um carro popular zero quilômetro.

O cenário do poder

O Pontão do Lago Sul não foi escolhido por acaso. Ali circulam deputados, senadores, empresários e lobistas. É onde quem manda no Brasil vai para ser visto.

Restaurantes com pratos acima de R$ 100. Lanchas atracadas. Carros importados no estacionamento. O triatlo encaixa perfeitamente nesse ecossistema de poder e dinheiro.

Enquanto isso, a apenas 20 quilômetros dali, nas cidades-satélites de Brasília, faltam pistas de corrida públicas decentes e piscinas para a população.

Esporte ou distinção social?

Triatlo virou febre entre executivos e políticos nos últimos anos. Não é só saúde. É status.

Completar um Ironman virou o novo MBA no currículo da elite. Mostra disciplina, dedicação, superação. E principalmente: mostra que você tem tempo e recursos para treinar horas por dia.

O trabalhador que pega duas conduções para chegar ao trabalho não tem esse luxo.

Os números da exclusividade

Segundo dados da Confederação Brasileira de Triathlon, apenas 0,02% da população brasileira pratica o esporte regularmente. São cerca de 40 mil atletas em um país de 215 milhões.

Desses, a maioria se concentra em bairros nobres de capitais. São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília dominam o ranking de praticantes.

Coincidência? Dificilmente.

Última chamada para a elite

As inscrições para o Metrópoles Endurance encerram hoje. Quem quiser fazer parte desse circuito precisa se apressar.

O evento promete estrutura de primeiro mundo: cronometragem eletrônica, posto médico, hidratação nos percursos e medalhas para os finalistas.

Tudo que o dinheiro pode comprar. Inclusive a sensação de pertencimento a um grupo seleto.

Porque no fim, não se trata apenas de cruzar a linha de chegada. Trata-se de cruzá-la no lugar certo, com as pessoas certas, sendo visto pelas pessoas certas.

E no Lago Sul, todo mundo que importa estará assistindo.

Fernando Andrade Villela

Fernando Andrade Villela

Investigador financeiro. Cobre offshores, patrimônio declarado vs. real, e o cruzamento entre política e mercado.