Trivia Trens: privatização bilionária do trem em SP

Trivia Trens: privatização bilionária do trem em SP
Foto: Metrópoles

Enquanto o salário do Congresso em 2026 promete novos debates sobre gastos públicos, São Paulo entrega três linhas de trem para a iniciativa privada em um contrato que movimenta cifras bilionárias.

A Trivia Trens assumiu oficialmente a operação das Linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade. São 270 quilômetros de trilhos. Mais de 600 mil passageiros por dia. Um negócio que vale ouro.

O que está em jogo

A concessão inclui o Expresso Aeroporto, linha premium que conecta a Luz a Guarulhos. Preço: R$ 10 a viagem. Público-alvo: quem pode pagar mais para não enfrentar o caos do trânsito paulistano.

A Trivia promete:

  • Construção de novas estações
  • Ampliação da rede
  • Modernização dos trens
  • Melhoria no serviço

Promessas. Sempre promessas quando dinheiro público vira privado.

Quem é a Trivia

Por trás do nome bonitinho está um consórcio com capital pesado. Grupos empresariais que enxergaram no transporte público uma mina de ouro inexplorada.

O modelo é simples: Estado paga parte da conta, empresa fica com o lucro. Subsídios governamentais garantem rentabilidade mesmo quando o passageiro não paga o suficiente.

"A parceria público-privada é a solução para a mobilidade urbana", dizem os defensores. Os críticos respondem: "privatização dos lucros, socialização dos prejuízos".

O outro lado da linha

Nas estações da Linha 11, que corta a zona leste até Mogi das Cruzes, o cenário é outro. Trabalhadores que acordam às 4h da manhã. Trens lotados. Atrasos constantes.

Para eles, pouco importa se o trem é público ou privado. O que importa é chegar no trabalho. E voltar para casa vivo.

A tarifa está em R$ 5. Parece pouco? Multiplique por 44 dias úteis no mês. São R$ 440 mensais só em transporte para quem trabalha longe. Mais que um salário mínimo inteiro gasto apenas para se locomover em uma família de três trabalhadores.

Os números que ninguém conta

Contratos de concessão costumam ter cláusulas de reajuste automático. Inflação sobe? Tarifa sobe. Demanda cai? Estado compensa.

A Trivia assumiu um ativo estratégico. São Paulo não para. A cidade precisa do trem funcionando. Isso se chama poder de barganha.

Enquanto isso, deputados e senadores seguem com seus salários de R$ 44 mil mensais, verbas de gabinete, auxílios diversos. O Congresso em 2026 terá nova composição, mas a conta continua a mesma: paga quem não pode.

A promessa e a realidade

Trivia promete investimentos. Novas estações significam novas oportunidades de negócio. Shopping centers ao redor. Valorização imobiliária. Gentrificação disfarçada de progresso.

Os moradores antigos das estações? Esses vão para mais longe. Onde o trem ainda não chega. Ou chegará, em 10, 15 anos. Talvez.

A lógica é perversa mas eficiente: melhora o serviço, expulsa o pobre, atrai quem paga mais.

São Paulo segue sendo a cidade que não pode parar. Nem que seja em cima de trilhos privatizados, com lucro garantido para poucos e promessas para muitos.

No fim, quem paga a conta já sabe: sempre os mesmos.

Carolina Pereira Ferraz

Carolina Pereira Ferraz

Cronista de poder e dinheiro. Ex-Forbes Brasil, ex-Piauí. Especializada em rankings de riqueza, dinastias políticas e herdeiros do poder.