Tubarões mutilados vivos: a barbárie que rende US$ 1 bi/ano

Tubarões mutilados vivos: a barbárie que rende US$ 1 bi/ano
Foto: redir.folha.com.br

Um tubarão é içado ao convés de um atuneiro chinês na costa da África Ocidental. Três cortes rápidos. As barbatanas caem numa caixa. O animal — ainda respirando, ainda consciente — é jogado de volta ao mar. Sem conseguir nadar, afunda lentamente até morrer sufocado ou devorado.

Bem-vindo ao mercado de barbatanas de tubarão: US$ 1 bilhão por ano em crueldade pura.

O Ouro Cinzento dos Oceanos

Uma tigela de sopa de barbatana de tubarão pode custar US$ 100 em restaurantes de luxo asiáticos. Status. Tradição. Virilidade. Os motivos variam, mas o resultado é sempre o mesmo: 73 milhões de tubarões mortos anualmente, segundo organizações ambientais.

A ONG que flagrou a prática na África Ocidental não revelou sua identidade — medo de represálias é real quando se mexe com frotas pesqueiras chinesas. Mas as imagens vazaram: tripulantes cortando barbatanas metodicamente, dezenas de tubarões mutilados por dia.

A matemática é simples: barbatanas representam 5% do peso do tubarão mas 95% do valor comercial. Por que desperdiçar espaço no porão com carcaças?

Quem Está Por Trás

China domina 60% do mercado global de barbatanas. As frotas operam em águas internacionais ou compram direitos de pesca em países africanos pobres — Mauritânia, Senegal, Guiné. Os governos locais ganham migalhas. Os oceanos perdem ecossistemas inteiros.

Tubarões são predadores de topo. Sua extinção desestabiliza cadeias alimentares marinhas completas. Menos tubarões significa explosão de espécies intermediárias, colapso de recifes de coral, praias desertas.

Mas isso é problema para depois. Agora é hora de lucrar.

O Lado Podre do Capitalismo Selvagem

Enquanto isso, ao largo da costa brasileira, suspeitas crescem. Embarcações orientais cruzam nossas águas territoriais com frequência crescente. Autoridades ambientais não têm navios suficientes para fiscalizar. Empresários do setor pesqueiro reclamam de concorrência desleal.

E há rumores — sempre rumores quando se trata de negócios offshore — de que parte dessas operações tem sócios locais. Gente com bom trânsito em Brasília. Gente que sabe como licenças ambientais se transformam em papel picado quando há dinheiro suficiente na mesa.

"O finning [corte de barbatanas] é proibido no Brasil desde 2013, mas quem fiscaliza em alto-mar?", questiona um pesquisador que preferiu não se identificar.

Luxo Para Poucos, Oceanos Mortos Para Todos

A ironia é brutal: enquanto bilionários pagam milhões para "salvar os oceanos" em jantares beneficentes, outros bilionários lucram destruindo esses mesmos oceanos sistematicamente.

Organizações internacionais pedem acordos. Governos prometem fiscalização. ONGs divulgam relatórios. Mas as barbatanas continuam sendo cortadas. Os tubarões continuam afundando, agonizantes.

Porque no final, como sempre, vale a lei do mercado: se há demanda e o lucro compensa o risco, alguém vai fornecer. Ética é para quem pode pagar por ela.

E tubarões, definitivamente, não podem.

Fernando Andrade Villela

Fernando Andrade Villela

Investigador financeiro. Cobre offshores, patrimônio declarado vs. real, e o cruzamento entre política e mercado.