Viagogo sob mira: site de revenda leva multa de R$ 100 mil/dia

Viagogo sob mira: site de revenda leva multa de R$ 100 mil/dia
Foto: agenciabrasil.ebc.com.br

Cem mil reais. Por dia. É o que a Viagogo pode começar a desembolsar se não colocar um aviso bem claro no site: "Somos revendedores, não vendedores oficiais de ingressos."

A Secretaria Nacional de Defesa do Consumidor (Senacon) abriu processo administrativo sancionador contra a plataforma de revenda. A acusação é direta: enganar o consumidor brasileiro.

O esquema sob investigação

Segundo o secretário Nacional do Consumidor, Ricardo Morishita, as investigações revelaram um padrão. O site não deixa claro que opera como intermediário de revenda. O consumidor entra achando que está comprando direto do evento. Paga mais caro. Descobre a verdade tarde demais.

A Senacon determinou que a Viagogo deve estampar avisos em "todos os ambientes acessíveis aos clientes". Nada de letrinhas miúdas escondidas no rodapé.

Multa de seis dígitos

O valor da multa não foi escolhido ao acaso. R$ 100 mil por dia tem um recado embutido: ou vocês se adequam rápido, ou a conta vai doer no bolso.

A medida integra uma ofensiva maior do Ministério da Justiça contra práticas abusivas no mercado de consumo. Nas últimas semanas, a Senacon também mirou outros alvos:

  • Anúncios de casas de apostas (bets) da CazéTV durante a Copa do Mundo
  • Articulação de ações contra crime organizado no setor de combustíveis
  • Criação do Escritório Antifacção no Rio de Janeiro

O modelo de negócio sob escrutínio

Sites de revenda como a Viagogo operam numa zona cinzenta. Compram ingressos — às vezes em larga escala — e revendem com margem de lucro que pode chegar a centenas de por cento.

O problema não é revender. É fazer isso se passando por canal oficial. O consumidor paga premium achando que está garantindo ingresso genuíno direto da fonte. Na prática, está pagando sobrepreço para um intermediário.

Em outros países, a Viagogo já enfrentou processos similares. No Reino Unido, a empresa foi multada por práticas enganosas. Na Austrália, teve que reformular completamente sua comunicação com clientes.

O que muda para o consumidor

Se a determinação for cumprida, quem entrar no site verá logo de cara que se trata de revenda. Poderá comparar preços com canais oficiais antes de comprar. Terá escolha informada.

A Senacon não divulgou prazo para a Viagogo se adequar. Mas o relógio da multa diária já está armado. Cada dia de atraso representa R$ 100 mil a mais na conta.

Para uma empresa que lucra justamente na opacidade da operação, a transparência forçada pode custar mais do que multas. Pode custar o modelo de negócio inteiro.

"As investigações mostraram que o site não presta informações suficientes sobre o caráter de revenda de ingressos e induz o consumidor ao erro" — Ricardo Morishita, secretário Nacional do Consumidor

Enquanto isso, brasileiros continuam pagando R$ 800 num ingresso que custava R$ 200. A diferença? Vai pro bolso de quem apostou que consumidor desinformado não reclama.

Agora reclama. E tem Ministério da Justiça de testemunha.

Fernando Andrade Villela

Fernando Andrade Villela

Investigador financeiro. Cobre offshores, patrimônio declarado vs. real, e o cruzamento entre política e mercado.