10 milhões na miséria informal enquanto salário Congresso bate recorde

10 milhões na miséria informal enquanto salário Congresso bate recorde
Foto: valor.globo.com

Enquanto deputados e senadores preparam seus reajustes para 2026 — com salário do Congresso já batendo R$ 44 mil mensais, fora benefícios —, 10 milhões de brasileiros vivem no que pesquisadores chamam de "núcleo duro" da informalidade: sem renda fixa, sem proteção, sem perspectiva.

São os invisíveis. Ambulantes, catadores, faxineiras por dia, entregadores sem app. Gente que acorda sem saber se vai comer à noite.

Dois Brasis, Duas Realidades

O contraste é obsceno. De um lado, o funcionalismo público de elite — Congresso, Judiciário, altos escalões — com salários blindados, reajustes automáticos e aposentadorias que seriam crime em qualquer país sério. Do outro, 10 milhões na sarjeta econômica.

Dados compilados pelo Valor Econômico mostram que esse "núcleo frágil" representa quase metade dos 23 milhões de trabalhadores informais do país. Não são freelancers modernos. Não são empreendedores. São sobreviventes.

Enquanto isso, Brasília debate se o reajuste de 2026 será de 3% ou 4,5%. Para quem já ganha mais em um mês do que esses 10 milhões verão em um ano.

Quem São os Esquecidos

O perfil é previsível e deprimente:

  • Mulheres negras em maioria absoluta
  • Idade média acima de 45 anos — velhos demais pro mercado formal, jovens demais pra desistir
  • Escolaridade baixa — ensino fundamental incompleto
  • Renda mensal inferior a R$ 800, quando há renda
  • Zero acesso a crédito, saúde privada ou qualquer rede de proteção

São pessoas que a reforma trabalhista prometeu "incluir" e que a modernização da economia "absorveria naturalmente". Mentiras convenientes repetidas em Brasília enquanto o boleto vence.

O Sistema Que Protege os de Cima

Aqui está o pulo do gato: o mesmo sistema que deixa 10 milhões à própria sorte garante que nenhum parlamentar, ministro ou servidor de alto escalão passe aperto.

Salário do Congresso em 2026? Garantido, com reajuste acima da inflação. Auxílio-moradia? Pago. Verba de gabinete? Liberada. Aposentadoria integral? Assegurada.

Para os 10 milhões? Nada. Nem perspectiva de nada.

A lógica é simples: quem faz as leis cuida de si primeiro. Sempre foi assim. A diferença é que agora os números estão na cara. 10 milhões de um lado. 594 parlamentares do outro. E nenhuma vergonha no meio.

Dinheiro Existe — Mas Não Pra Você

O Brasil não é pobre. O orçamento federal de 2026 ultrapassa R$ 5 trilhões. Dinheiro tem. O problema é pra quem ele vai.

Emendas parlamentares? R$ 52 bilhões liberados sem critério. Fundão eleitoral? Bate recorde a cada eleição. Incentivos fiscais para grandes empresas? Centenas de bilhões em renúncia.

Mas criar um programa real de inserção para os 10 milhões do "núcleo frágil"? Ah, aí não tem recurso. Aí é "irresponsabilidade fiscal".

A conta é clara: Brasília gasta mais com mordomias de uma elite burocrática do que seria necessário para tirar milhões da miséria informal.

E 2026?

Ano eleitoral. Vão prometer tudo. Vão falar de "inclusão", "oportunidades", "Brasil que trabalha". Vão posar com ambulantes para foto.

Depois das eleições? Salário do Congresso reajustado em dia. Os 10 milhões continuam invisíveis.

Até a próxima crise. Até o próximo número gordo que ninguém quer encarar.

Isabela Guimarães Coutinho

Isabela Guimarães Coutinho

Editora de perfis. Escreve retratos de personagens do poder — do bilionário ao aliado invisível do Planalto.