EUA e Japão gastam bilhões para salvar iene em colapso

EUA e Japão gastam bilhões para salvar iene em colapso
Foto: valor.globo.com

Enquanto você quebra a cabeça para pagar as contas, Estados Unidos e Japão acabam de queimar bilhões de dólares em uma única sexta-feira. O motivo? Salvar o iene japonês de um colapso histórico.

A moeda japonesa despencou na semana passada ao nível mais baixo em quatro décadas. Pânico nos mercados. Reuniões de emergência. E a solução dos poderosos? Abrir o cofre público.

O Ministério das Finanças do Japão confirmou nesta segunda-feira (2) que interveio diretamente no mercado cambial — em coordenação com o Departamento do Tesouro americano. É a primeira vez em 15 anos que Washington e Tóquio agem juntos para manipular o valor de uma moeda.

O clube dos trilhões

A ministra das Finanças japonesa, Satsuki Katayama, soltou o comunicado oficial confirmando a operação conjunta. Mas o valor exato investido? Segredo de Estado.

Especialistas estimam que intervenções desse tipo custam dezenas de bilhões de dólares. Dinheiro que poderia construir hospitais, escolas, infraestrutura. Mas foi direto para os bolsos de quem negocia moedas.

A recuperação do iene veio de três frentes simultâneas:

  • Compra massiva de ienes pelos bancos centrais
  • Pressão direta sobre grandes bancos privados que negociam a moeda
  • Declarações públicas coordenadas entre Katayama e o secretário do Tesouro dos EUA

Por que Washington se envolve?

Boa pergunta. O Japão é a quarta maior economia do mundo, mas está longe de ser território americano. Então por que o governo dos EUA queima dinheiro do contribuinte para salvar a moeda de outro país?

A resposta está nos US$ 1,1 trilhão que o Japão possui em títulos do Tesouro americano. Tóquio é o maior credor estrangeiro de Washington. Se o iene colapsa, o Japão pode ser forçado a vender esses títulos para defender sua economia.

E isso derrubaria o dólar. Simples assim.

O teatro das moedas

Durante dias, autoridades japonesas negaram qualquer intervenção. Alimentaram especulações. Deixaram o mercado em suspense.

Quando o iene finalmente se recuperou na sexta-feira, todos sabiam o que havia acontecido. Mas ninguém confirmava oficialmente. Só nesta segunda veio o anúncio formal.

Esse jogo de gato e rato faz parte da estratégia. Cria incerteza. Assusta especuladores. Mas também esconde dos cidadãos comuns quanto dinheiro público está sendo usado.

"A intervenção foi necessária para estabilizar mercados voláteis e proteger a economia global"

É o que dizem os comunicados oficiais. Traduzindo: proteger os lucros de quem joga no cassino financeiro internacional.

Quem paga essa conta?

Não são os políticos mais ricos do Brasil ou de qualquer outro país. Eles estão seguros, com patrimônios diversificados e assessores financeiros de primeira linha.

Quem paga são os trabalhadores comuns do Japão e dos Estados Unidos. Através de impostos. Através de inflação. Através de cortes em serviços públicos quando os governos precisam fechar as contas.

Quinze anos atrás, a última intervenção conjunta aconteceu durante a crise financeira de 2008-2009. Aquela que quebrou milhões de famílias enquanto banqueiros recebiam bônus milionários.

A história se repete. Sempre com os mesmos vencedores.

Fernando Andrade Villela

Fernando Andrade Villela

Investigador financeiro. Cobre offshores, patrimônio declarado vs. real, e o cruzamento entre política e mercado.