65 milhões nos ares: o clube VIP que você paga sem entrar
Enquanto você calcula se consegue parcelar a passagem em seis vezes sem juros, 65,2 milhões de brasileiros embarcaram em aviões no primeiro semestre de 2026. O número impressiona. Mas a pergunta que ninguém faz é: quem está voando de verdade?
A ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil) divulgou nesta segunda-feira (20) que o transporte aéreo cresceu 5,4% em relação ao mesmo período de 2025. São 50,2 milhões em voos domésticos e 15 milhões internacionais.
Bonito no papel. Péssimo no bolso de quem ganha salário mínimo.
O céu tem classe social
A conta é simples: uma passagem São Paulo-Rio custa em média R$ 800. O salário mínimo brasileiro está em R$ 1.518. Faça as contas. Para a maioria dos brasileiros, voar continua sendo artigo de luxo — ou endividamento garantido.
Enquanto isso, as dinastias políticas brasileiras atravessam o país em jatinhos particulares pagos pelo contribuinte. Senadores, deputados e seus familiares acumulam milhões em diárias e passagens aéreas custeadas com dinheiro público.
Só em 2025, a Câmara dos Deputados gastou R$ 187 milhões com passagens e diárias aéreas. O Senado, outros R$ 94 milhões. Total: R$ 281 milhões para manter a elite política circulando pelo país.
Quem lucra com o show
O crescimento de 5,4% representa um mercado que movimenta bilhões. As três maiores companhias aéreas brasileiras — Latam, Gol e Azul — faturaram juntas R$ 89 bilhões em 2025.
Os controladores? Famílias tradicionais do empresariado brasileiro e fundos internacionais de investimento. A Latam é controlada pelas famílias Cueto (chilena) e Amaro (brasileira). A Azul tem como principal acionista David Neeleman, empresário americano com fortuna estimada em US$ 400 milhões.
Já a Gol, em recuperação judicial desde 2024, deve R$ 25 bilhões aos credores. Mas os executivos continuam recebendo bônus milionários enquanto passageiros enfrentam voos lotados e atrasados.
O jogo dos aeroportos
Por trás dos números de passageiros está outro negócio bilionário: as concessões aeroportuárias. Desde 2011, o governo federal privatizou os principais aeroportos brasileiros.
Guarulhos, Galeão, Congonhas e Brasília estão nas mãos de grupos como Fraport (alemão), Changi (singapurense) e fundos brasileiros ligados ao mercado financeiro.
O modelo funcionou para os investidores. Para o passageiro comum, significou tarifas mais caras disfarçadas de "taxa de embarque" e "taxa de uso".
"O brasileiro paga para entrar no aeroporto, paga para sair, paga para comer um sanduíche de R$ 45 e ainda torce para o voo não atrasar cinco horas"
A conta que não fecha
Dos 65,2 milhões de passageiros, a elite representa menos de 10% mas consome mais de 40% dos assentos. Viajam a trabalho, em executiva, acumulam milhas que nunca expiram.
O restante? Classe econômica apertada, bagagem despachada paga à parte, assento sem espaço para as pernas e — nos piores dias — avião quebrado esperando manutenção.
As companhias aéreas justificam: custos operacionais elevados, querosene caro, impostos altos. Verdade. Mas os lucros continuam sendo distribuídos aos acionistas enquanto o serviço piora ano após ano.
Sessenta e cinco milhões de passageiros. Um número recorde que esconde uma verdade incômoda: a aviação brasileira cresceu, mas continua sendo um clube VIP financiado por quem nunca conseguirá pagar a mensalidade.