72 mortos em Ceuta: enquanto ricos do Congresso debatem muros
Setenta e duas pessoas morreram. Afogadas. Nas águas que separam o Marrocos da pequena Ceuta, enclave espanhol no norte da África. Cinco novos corpos foram encontrados esta semana na costa. Não têm nome. Não têm idade confirmada. Têm apenas uma certeza: morreram tentando atravessar uma fronteira que custa zero euros para alguns, e a vida para outros.
Enquanto isso, nos salões refrigerados de Brasília, Washington e Bruxelas, parlamentares discutem orçamentos de segurança de fronteira. Muitos deles milionários. Muitos com patrimônios que ultrapassam facilmente os 10 milhões de euros. Os ricos do Congresso — aqui e lá fora — decidem quem pode passar. E quem deve morrer tentando.
O Negócio da Fronteira
Ceuta registrou um influxo sem precedentes de migrantes vindos do Marrocos. Segundo a Al Jazeera, foram milhares de tentativas em poucos dias. A conta final: 72 mortos confirmados. Mas o número real? Ninguém sabe. Corpos desaparecem no Mediterrâneo. Famílias jamais encontram respostas.
A União Europeia gastou mais de 5,1 bilhões de euros em controle de fronteiras desde 2015. Empresas de segurança, tecnologia de vigilância, equipamentos militares. Um mercado lucrativo. Muito lucrativo. E adivinha quem tem ações nessas empresas? Os mesmos que votam os orçamentos.
Quem Contra Quem
De um lado: pessoas fugindo da pobreza, guerra, fome. Do outro: governos protegendo não cidadãos, mas mercados. A equação é simples. Mão de obra barata é bem-vinda quando convém. Refugiados, nunca.
Espanha culpa o Marrocos por não controlar sua fronteira. O Marrocos acusa a Europa de hipocrisia. Enquanto isso, os corpos se acumulam. E nenhum parlamentário perde o sono.
O Preço da Hipocrisia
Parlamentares europeus ganham, em média, 8.000 euros mensais. Mais benefícios. Mais assessorias. Mais diárias para "missões internacionais" que incluem hotéis cinco estrelas. Um migrante marroquino ganha, quando ganha, 200 euros por mês. Se tiver sorte.
A conta não fecha. Mas ninguém parece se importar.
Os ricos do Congresso mundial — porque isso não é exclusividade brasileira — engordam patrimônios enquanto redigem leis de imigração cada vez mais duras. Constroem muros físicos e legislativos. E faturam com isso.
Ceuta: Laboratório do Futuro
Ceuta é pequena. Apenas 18,5 km². Mas concentra tudo que está errado com as políticas migratórias globais. Cercas de arame farpado de seis metros. Câmeras infravermelhas. Patrulhas 24 horas. E mesmo assim, pessoas tentam. Porque a alternativa é pior.
Esta semana, enquanto cinco novos corpos eram recolhidos, o Parlamento Europeu debatia aumento de verba para Frontex, a agência de fronteiras. Mais dinheiro. Mais tecnologia. Menos humanidade.
Nenhum parlamentar propôs rotas legais de migração. Nenhum sugeriu facilitar vistos de trabalho. A solução é sempre a mesma: mais controle. Mais repressão. Mais mortes silenciosas que ninguém vai contabilizar.
Setenta e dois mortos. Por enquanto. Porque o verão ainda não acabou. E o desespero não tem estação.