Briga de bilhões: quem fica com a Oncoclínicas?

Briga de bilhões: quem fica com a Oncoclínicas?
Foto: valor.globo.com

Seis bilhões de reais. Esse é o tamanho da briga que está sacudindo os bastidores da Oncoclínicas, a maior rede de tratamento de câncer do Brasil. Enquanto brasileiros comuns esperam meses por uma consulta no SUS, os tubarões do mercado financeiro disputam quem vai embolsar a fortuna.

Na última sexta-feira (17), a gestora americana Centaurus jogou a toalha. Reduziu sua participação de 14,76% para 9,91% e entregou o posto de maior acionista. Saiu de cena discretamente, mas deixou a porta aberta para um leilão de gente grande.

Latache assume o trono

Quem entrou no lugar? A Latache, com 14,59% das ações. E não veio para passear. A gestora está entre as principais interessadas em fazer uma oferta pública de aquisição (OPA) que pode valer R$ 6 bilhões — quase sete vezes o valor de mercado atual da companhia.

Traduzindo: alguém está disposto a pagar um prêmio gordo para controlar o negócio. A pergunta que fica é: por quê?

O jogo está armado

A Oncoclínicas não é qualquer empresa. É um império que fatura tratando uma das doenças que mais matam no país. Controlar essa máquina significa dominar uma fatia suculenta do mercado de saúde privada brasileiro.

A IG4, gestora brasileira ligada ao bilionário Abilio Diniz, também está na jogada. Quer botar a mão na companhia. Do outro lado, a Centaurus, que chegou a ser a maior acionista, decidiu recuar.

Movimentos assim não acontecem por acaso. Gestoras internacionais não vendem posições relevantes às vésperas de uma OPA sem motivo. Ou sabem algo que o mercado não sabe, ou preferiram garantir lucro certo antes da confusão.

Quanto vale uma vida? Depende de quem pergunta

Enquanto a briga corre solta nos conselhos de administração, pacientes continuam pagando fortunas por tratamentos oncológicos. O Brasil tem cerca de 625 mil novos casos de câncer por ano, segundo o INCA. É um mercado que não para de crescer.

A Oncoclínicas atende justamente quem pode pagar. São clínicas espalhadas por todo o país, equipamentos de última geração, médicos renomados. Tudo muito bem embalado para quem tem plano de saúde top ou dinheiro no bolso.

Para os investidores, é matemática pura: doença não tem crise. Gente vai continuar ficando doente, e quem tem dinheiro vai continuar pagando caro para se tratar. Simples assim.

O xadrez dos bilionários

A Latache não está sozinha nessa dança. Outras gestoras observam de camarote, calculando se vale a pena entrar na disputa ou deixar os concorrentes se degladiarem.

A IG4, do clã Diniz, tem histórico de brigas homéricas no mundo corporativo. Não costuma desistir fácil quando quer algo. Se topou entrar nessa guerra, é porque viu oportunidade de lucro grande.

Do outro lado, fundos estrangeiros como a Centaurus geralmente pensam em prazos mais curtos. Entram, valorizam, saem. A redução da participação pode ser apenas um reposicionamento tático — ou um sinal de que a festa está acabando.

E o paciente nisso tudo?

Ah, o paciente. Esse personagem fica de fora da negociação. Ninguém vai perguntar para quem está na quimioterapia se prefere ser tratado por um fundo americano ou por uma gestora brasileira.

O que importa nos conselhos de administração é retorno sobre investimento, múltiplos de EBITDA, sinergias operacionais. Palavras bonitas para dizer: quanto dá para tirar de lucro dessa operação?

Enquanto isso, a conta do tratamento continua pesada para quem precisa. E vai continuar, não importa quem vença essa queda de braço bilionária.

Seis bilhões de reais em jogo. É muita grana disputando o direito de lucrar com a doença alheia. Bem-vindo ao capitalismo da saúde.

Isabela Guimarães Coutinho

Isabela Guimarães Coutinho

Editora de perfis. Escreve retratos de personagens do poder — do bilionário ao aliado invisível do Planalto.