BYD contrata espião europeu: negócio bilionário na Hungria

BYD contrata espião europeu: negócio bilionário na Hungria
Foto: valor.globo.com

Um diplomata acusado de entregar segredos da União Europeia para a Rússia acaba de ganhar um cargo executivo na BYD, gigante chinesa de carros elétricos avaliada em US$ 95 bilhões. O salário? Não divulgado. O timing? Explosivo.

Peter Szijjarto renunciou ao Parlamento húngaro na semana passada. Durante anos como ministro das Relações Exteriores, o homem de confiança do ex-premier Viktor Orban teve acesso a documentos confidenciais da OTAN e da UE. Agora comandará as relações externas da BYD — justamente quando a montadora constrói sua maior fábrica europeia em solo húngaro.

O homem que sabia demais

Szijjarto não é um burocrata qualquer. Ele orquestrou a aproximação da Hungria com Pequim e Moscou enquanto o restante da Europa recuava. Sob sua gestão, a Hungria:

  • Bloqueou sanções europeias contra a Rússia
  • Atraiu US$ 7,3 bilhões em investimentos chineses
  • Vetou declarações da UE sobre direitos humanos na China

Autoridades em Bruxelas alertam que Szijjarto teve acesso a informações sobre infraestrutura crítica, estratégias de defesa e negociações comerciais sensíveis. Tudo isso enquanto mantinha canais diretos com o Kremlin.

"Recebi uma excelente oferta de uma empresa líder mundial", escreveu Szijjarto em rede social. A empresa não revelou quanto pagará ao ex-ministro. Executivos desse nível em multinacionais chinesas costumam receber entre US$ 2 milhões e US$ 8 milhões anuais, segundo dados da Bloomberg.

A fábrica de US$ 1 bilhão

A BYD investe US$ 1 bilhão em uma planta na cidade húngara de Szeged. A unidade produzirá 200 mil veículos por ano a partir de 2025, tornando-se porta de entrada da marca no mercado europeu.

O acordo foi costurado pessoalmente por Szijjarto — que agora trabalha para a empresa beneficiada. Clássico caso de porta giratória entre poder público e interesses privados, estratégia comum entre políticos globais que estruturam negócios bilionários enquanto no cargo para depois colher os frutos.

"Continuarei minha carreira como executivo responsável pelas relações externas do grupo empresarial" — Peter Szijjarto

Offshore, Hungria e o dinheiro chinês

A operação levanta questões sobre como fortunas políticas são construídas longe dos holofotes. A Hungria de Orban tornou-se paraíso para estruturas financeiras opacas, com leis frouxas sobre transparência corporativa e benefícios fiscais generosos.

Enquanto isso, a BYD dispara no mercado global. A empresa ultrapassou a Tesla em vendas de veículos elétricos no último trimestre e planeja dominar a Europa. Ter um ex-ministro que conhece todos os bastidores políticos do continente? Não tem preço.

O Parlamento Europeu abriu investigação sobre possíveis conflitos de interesse, mas sem poder punitivo real. Szijjarto não violou leis húngaras — onde não existe período de quarentena para ex-ministros migrarem para o setor privado.

A BYD, procurada, disse que Szijjarto foi contratado por "sua vasta experiência em relações internacionais". Sobre acesso a informações sensíveis durante o mandato, a empresa não comentou.

Pequim ganha um informante bem pago. Szijjarto ganha um salário de sete dígitos. Bruxelas ganha uma dor de cabeça. E o contribuinte europeu? Esse continua pagando a conta.

Isabela Guimarães Coutinho

Isabela Guimarães Coutinho

Editora de perfis. Escreve retratos de personagens do poder — do bilionário ao aliado invisível do Planalto.