Carne brasileira vale bilhões: Reino Unido ignora veto europeu

Carne brasileira vale bilhões: Reino Unido ignora veto europeu
Foto: moneytimes.com.br

Enquanto o brasileiro médio paga R$ 45 no quilo da picanha, os britânicos garantiram seu acesso à carne verde-amarela — e aos bilhões que giram nesse mercado. Londres anunciou que vai continuar comprando carne brasileira, mesmo depois da União Europeia bater a porta para nossos frigoríficos a partir de 3 de setembro.

O recado veio direto da Associação Internacional do Comércio de Carnes (Imta) aos importadores britânicos: o Brasil continua no jogo. A UE tirou o país da lista de fornecedores por causa de regras mais duras sobre antimicrobianos — aqueles antibióticos usados na criação de gado que viram dor de cabeça sanitária.

O jogo de xadrez pós-Brexit

Desde que saiu da UE, o Reino Unido joga com suas próprias regras. E nesse tabuleiro, a carne brasileira vale ouro. Estamos falando de um mercado que movimenta dezenas de bilhões de dólares por ano só em exportações de proteína animal.

Quem ganha com isso? Do lado de cá, os gigantes do agronegócio — JBS, Marfrig, Minerva — empresas que faturam cifras de nove dígitos e mantêm conexões estreitas com o poder em Brasília. Não é coincidência que representantes dessas corporações transitem livremente pelos corredores do Congresso.

Do lado britânico, a conta também fecha: carne brasileira custa menos que a europeia. Para consumidores e supermercados ingleses, é matemática simples.

Dinastias e bifes

O agronegócio brasileiro não é só fazenda e boi. É bancada, é ministério, é influência. Famílias que controlam terra e gado há gerações também controlam cadeiras no Senado e na Câmara. A chamada bancada ruralista reúne mais de 300 parlamentares — muitos deles herdeiros de sobrenomes que atravessam décadas no poder.

Essas dinastias políticas brasileiras construíram impérios misturando hectares com votos. E quando Bruxelas fala em restrição sanitária, Brasília responde com lobby pesado em cada capital que importa nossa carne.

Londres ouviu. E decidiu manter as portas abertas.

O que está em jogo

A decisão britânica não é apenas comercial — é geopolítica. Significa que o Reino Unido está disposto a desafiar o padrão sanitário europeu para garantir fornecimento mais barato e diversificado de proteína.

Para o Brasil, cada tonelada de carne exportada representa:

  • Dólares entrando no país
  • Empregos em frigoríficos e fazendas
  • Poder de barganha para os barões do agro
  • Combustível político para quem representa o setor

O veto europeu poderia ter custado bilhões. Mas com o Reino Unido segurando a mão brasileira, o prejuízo fica menor — e o jogo continua.

Antimicrobianos: o fantasma sanitário

A UE endureceu porque há anos cientistas alertam: antibióticos demais no gado criam superbactérias resistentes. O que começa no cocho termina em hospitais, com infecções impossíveis de tratar.

O Brasil alega que segue normas internacionais. A Europa diz que não basta. O Reino Unido preferiu não entrar nessa briga — pelo menos por enquanto.

Enquanto isso, a picanha continua saindo de Goiás e Mato Grosso rumo aos supermercados de Manchester e Liverpool. E as famílias que mandam no boi — e na política — agradecem o carinho britânico.

Isabela Guimarães Coutinho

Isabela Guimarães Coutinho

Editora de perfis. Escreve retratos de personagens do poder — do bilionário ao aliado invisível do Planalto.