R$ 92 bi do seu bolso irrigaram desmate — veja quem lucrou

R$ 92 bi do seu bolso irrigaram desmate — veja quem lucrou
Foto: moneytimes.com.br

Enquanto o brasileiro médio ganha R$ 2.900 por mês, R$ 92,4 bilhões do dinheiro público irrigaram fazendas flagradas desmatando entre 2019 e 2025.

O número vem do MapBiomas, organização que monitora satélites. São 831 mil operações de crédito rural — 15% do total concedido no período — que foram parar em imóveis com alertas de desmatamento ou degradação.

Traduzindo: seu imposto financiou motosserra.

O esquema é simples

Banco público empresta barato para produtor rural. Produtor derruba mata. Satélite flagra. Dinheiro já foi.

Não há devolução. Não há punição financeira automática. O sistema segue girando.

Entre os beneficiários do crédito subsidiado estão desde pequenos até grandes proprietários. Mas o grosso do dinheiro — como sempre — se concentra no topo.

Quem está no ranking dos bilionários do agro

O Brasil tem hoje 65 bilionários, segundo a Forbes. Desses, pelo menos oito fizeram fortuna no agronegócio ou em setores diretamente ligados.

Nomes como a família Batista (JBS), os Maggi (soja) e outros gigantes do setor movimentam cifras que fariam 92 bilhões parecer troco.

A JBS sozinha faturou R$ 420 bilhões em 2023. Para efeito de comparação, o Bolsa Família inteiro custa R$ 170 bilhões por ano.

O contribuinte paga duas vezes

Primeira vez: financia o crédito subsidiado via impostos.

Segunda vez: paga pela degradação ambiental — secas, enchentes, perda de biodiversidade.

O MapBiomas detectou que parte significativa dos alertas ocorreu em áreas de preservação permanente e reserva legal. Ou seja: crimes ambientais financiados com verba pública.

Números que doem

  • 831 mil operações irregulares
  • R$ 92,4 bilhões em crédito comprometido
  • 15% do total de financiamento rural
  • Período: 2019 a 2025

O Monitor do Crédito Rural cruzou dados públicos de financiamento com imagens de satélite. A tecnologia existe. A fiscalização, nem tanto.

Bancos públicos no banco dos réus

Banco do Brasil, Banco da Amazônia e outras instituições federais são os principais operadores desse crédito.

Todos têm normas ambientais. Todas são ignoradas na prática.

A lógica é clara: bater meta de desembolso vale mais que conferir se o cliente está desmatando.

E os bilionários nisso tudo?

Nenhum bilionário do agro aparece nominalmente no relatório do MapBiomas. As operações são pulverizadas, feitas através de dezenas de empresas e propriedades.

Mas a concentração fundiária no Brasil é clara: 1% dos proprietários controla 47% da área rural privada.

Quando R$ 92 bilhões são distribuídos num setor tão concentrado, não é difícil calcular para onde escorre a maior parte.

Impunidade verde-e-amarela

O Brasil criou regras. Criou sistemas de monitoramento. Crioupenalidades.

Mas entre a lei e a porteira, o dinheiro passa. E a floresta cai.

Enquanto isso, o ranking dos bilionários brasileiros segue engordando — muitos deles com sobrenomes carimbados no agronegócio.

Seu imposto financia. O satélite registra. E nada acontece.

Fernando Andrade Villela

Fernando Andrade Villela

Investigador financeiro. Cobre offshores, patrimônio declarado vs. real, e o cruzamento entre política e mercado.