Império agrícola de R$ 8 bi enfrenta El Niño: quem paga a conta?
A SLC Agrícola movimenta R$ 8 bilhões em ativos enquanto pequenos produtores quebram na primeira seca. Agora, o El Niño ameaça a próxima safra — e o BTG Pactual já começou a revisar os números para baixo.
Em relatório divulgado segunda-feira (20), o banco reduziu as projeções para a safra 2026/27 da companhia listada na B3 sob o ticker SLCE3. A razão? O fenômeno climático que pode devastar lavouras está de volta ao radar.
Mas Aurélio Pavinato, CEO da SLC Agrícola, garante: desta vez é diferente. "Estamos muito mais preparados do que em 2016", afirmou o executivo, referindo-se ao ano em que o El Niño anterior castigou produtores Brasil afora.
O império do agronegócio sob ameaça climática
A SLC Agrícola não é uma fazendinha qualquer. É um dos maiores produtores de grãos do país, com operações espalhadas por estados estratégicos. Quando a empresa espirra, o mercado de commodities sente febre.
O BTG não cortou as estimativas por alarmismo. Os analistas do banco incorporaram ao modelo um "cenário moderado" de impacto do El Niño. Tradução: estão apostando que o clima vai apertar, mas sem drama total.
A questão é quanto. Quanto de produtividade vai cair? Quanto o preço da soja e do milho vai subir no mercado? E, principalmente, quanto o consumidor final vai pagar a mais no supermercado?
Lição de 2016: quando o clima vira inimigo
O último El Niño forte, em 2016, foi brutal. Produtores viram lavouras inteiras morrerem. A SLC não escapou ilesa, mas sobreviveu — privilégio de quem tem capital para absorver o choque.
Desde então, a companhia investiu em tecnologia, diversificação geográfica e gestão de risco. O discurso do CEO reflete essa blindagem financeira. Pequenos agricultores, sem acesso aos mesmos recursos, não têm o mesmo luxo.
A diferença é simples: quando uma gigante perde margem, ela ajusta estratégia. Quando um pequeno produtor perde safra, ele perde tudo.
O que está em jogo
O BTG mantém recomendação de compra para SLCE3, mesmo com as projeções ajustadas. Os analistas acreditam que a empresa tem estrutura para navegar a tempestade climática — literalmente.
Mas o mercado está atento. Qualquer sinal de que o El Niño será mais severo pode derrubar as ações. E qualquer quebra de safra significativa vai pressionar os preços dos alimentos para o brasileiro comum.
Por enquanto, é jogo de espera. Meteorologistas monitoram o Pacífico. Analistas monitoram planilhas. E o CEO da SLC repete seu mantra: estamos preparados.
A pergunta que fica: preparados para quê, exatamente? Para manter as margens de lucro? Ou para garantir que comida não falte — e não fique impagável — na mesa de quem realmente precisa?
Porque no final das contas, quando o clima aperta, quem sofre de verdade nunca são os donos de impérios bilionários do agronegócio.