Maduro preso: fortuna oculta e patrimônio de aliados em jogo

Maduro preso: fortuna oculta e patrimônio de aliados em jogo
Foto: valor.globo.com

Nicolás Maduro está preso em Nova York. A fortuna que ele e seu círculo acumularam durante anos de ditadura na Venezuela? Essa continua muito bem guardada.

Deposto por uma intervenção militar americana no início de 2026, o ex-ditador venezuelano usou o Telegram neste domingo para clamar por "qualquer caminho para o diálogo". Diálogo. A palavra soa irônica vinda de quem silenciou opositores enquanto o país afundava na miséria.

Mas a questão que ninguém está fazendo é mais simples: cadê o dinheiro?

O rastro dos bilhões

Durante 13 anos no poder — herdeiro do chavismo inaugurado por Hugo Chávez em 1999 —, Maduro presidiu o colapso de uma das economias mais ricas da América Latina. A Venezuela, que tem as maiores reservas de petróleo do mundo, viu sua população passar fome.

Enquanto isso, senadores e deputados do regime chavista construíram patrimônios estratosféricos. Mansões em Miami. Contas na Suíça. Empresas-fantasma no Panamá.

O padrão é conhecido: poder público vira caixa privado.

Quem lucrou com a miséria

Investigações internacionais estimam que a cúpula chavista desviou mais de US$ 300 bilhões em duas décadas. Dinheiro de petróleo, mineração ilegal de ouro, narcotráfico.

Os nomes? Diosdado Cabello, número dois do regime, acusado de controlar rotas de cocaína. Tareck El Aissami, ex-vice-presidente, sancionado pelos EUA por lavagem de dinheiro. Delcy Rodríguez, vice de Maduro até a queda, flagrada em aeroportos europeus com malas de dinheiro vivo.

E os senadores venezuelanos? Esses nunca declararam patrimônio. Não existe transparência. Não há prestação de contas.

Maduro pede diálogo agora. Mas nunca quis transparência.

O contraste obsceno

Enquanto a elite chavista acumulava, 7,7 milhões de venezuelanos fugiram do país desde 2014 — a maior crise migratória da história recente das Américas. Famílias atravessaram a pé a fronteira com a Colômbia. Médicos viraram ambulantes no Brasil. Engenheiros lavam pratos no Chile.

Maduro e seu círculo? Esses mandaram os filhos estudar em universidades europeias de elite. Frequentaram restaurantes de US$ 1.000 por pessoa enquanto venezuelanos comiam das lixeiras de Caracas.

Agora, preso, o ex-ditador fala em diálogo. Mas não fala em devolver um centavo.

A questão que fica

Com Maduro preso, começa a corrida para rastrear fortunas ocultas. Governos ocidentais prometem congelar ativos. Promotores americanos preparam acusações de corrupção em massa.

Mas a experiência com ditadores latino-americanos ensina: recuperar dinheiro desviado é quase impossível. As offshores são labirínticas. Os laranjas, incontáveis. Os paraísos fiscais, bem pagos para manter sigilo.

Maduro pode ficar preso por décadas. Seus senadores e generais podem responder na Justiça. Mas o patrimônio? Esse provavelmente nunca voltará para quem de direito.

O povo venezuelano pagou a conta. E continua pagando.

"Qualquer caminho para o diálogo" — fácil falar quando você já garantiu sua aposentadoria em contas secretas enquanto seu país virou pó.
Fernando Andrade Villela

Fernando Andrade Villela

Investigador financeiro. Cobre offshores, patrimônio declarado vs. real, e o cruzamento entre política e mercado.