Mercado de carbono de R$ 5 bi abre porta para offshore no Brasil

Mercado de carbono de R$ 5 bi abre porta para offshore no Brasil
Foto: valor.globo.com

Enquanto o brasileiro médio ganha R$ 2.800 por mês, uma nova indústria promete movimentar R$ 5 bilhões em cinco anos sem sujar as mãos. O mercado de créditos de carbono acaba de dar um passo decisivo rumo à regulamentação no Brasil — e onde há bilhões sem regras claras, há sempre os mesmos nomes de sempre.

A regulação dos créditos de carbono avançou nesta semana com novos marcos legais. Na prática, empresas que poluem compram "direitos de poluir" de quem preserva florestas. Simples assim. Lucrativo também.

O Novo Eldorado Verde

Cinco bilhões de reais nos próximos cinco anos. É o que projeta o mercado regulado de carbono no Brasil, segundo fontes do setor. Para efeito de comparação, seria possível construir 100 mil casas populares com esse dinheiro. Ou pagar 148 mil salários mínimos por ano.

Mas não é para isso que o dinheiro está reservado.

O mercado funciona assim: sua empresa polui demais? Compre créditos de quem planta árvore ou preserva mata. No papel, todo mundo ganha. A empresa continua poluindo "legalmente". O preservador lucra. E o planeta... bem, o planeta continua esquentando.

Quem Está Por Trás

O timing da regulação levanta questões. Com regras mais claras, surgem oportunidades para estruturas sofisticadas de investimento. Offshores, por exemplo.

Não é teoria da conspiração. É matemática. Mercados bilionários atraem capital internacional. Capital internacional busca paraísos fiscais. Paraísos fiscais atraem políticos e empresários que preferem privacidade.

A pergunta que ninguém está fazendo: quem será dono das terras que vão gerar esses créditos? Quais empresas vão intermediar as transações? Onde estão registradas?

O Padrão que se Repete

O Brasil já viu esse filme. Toda nova fronteira econômica vira playground dos mesmos atores:

  • Fundos de pensão estatais entrando como investidores-âncora
  • Empresas registradas em paraísos fiscais comprando ativos estratégicos
  • Políticos com parentes em conselhos consultivos
  • ONGs ambientais financiadas por quem lucra com a devastação

O mercado de carbono tem potencial para repetir o roteiro. Afinal, estamos falando de um ativo intangível — você não pode tocar, cheirar ou ver um crédito de carbono. Existe apenas no papel. Ou melhor, em planilhas de Excel em servidores nas Ilhas Cayman.

A Conta que Não Fecha

R$ 5 bilhões em cinco anos significa R$ 1 bilhão por ano. São R$ 83 milhões por mês circulando num mercado que 99% da população não entende.

Compare: o Bolsa Família paga R$ 14 bilhões por mês para 21 milhões de famílias. O mercado de carbono vai movimentar R$ 83 milhões mensais para um clube fechado de empresas, consultores e intermediários.

A regulação é necessária? Sim. O mercado de carbono pode ajudar o meio ambiente? Talvez. Mas uma coisa é certa: quando bilhões começam a circular em setores recém-regulados, é melhor ficar de olho.

Porque onde tem dinheiro verde, costuma ter conta cinza.

"A transparência será fundamental para garantir que o mercado de carbono não vire mais uma ferramenta de lavagem de dinheiro disfarçada de consciência ambiental"

O problema não é a ideia. É a execução. E no Brasil, a execução geralmente beneficia quem já tem CNPJ em lugares onde não chove.

Isabela Guimarães Coutinho

Isabela Guimarães Coutinho

Editora de perfis. Escreve retratos de personagens do poder — do bilionário ao aliado invisível do Planalto.