Municípios avançam sobre R$ 700 bi e tiram fatia dos Estados

Municípios avançam sobre R$ 700 bi e tiram fatia dos Estados
Foto: valor.globo.com

Enquanto você paga a conta, prefeitos e governadores brigam por R$ 700 bilhões. A reforma tributária que promete simplificar impostos virou guerra pelo cofre público — e os municípios estão ganhando.

A disputa acontece nos bastidores de Brasília. De um lado, prefeitos querem mais dinheiro direto nos caixas municipais. Do outro, governadores tentam segurar a fatia dos Estados. No meio, contribuintes que continuarão pagando a mesma carga brutal.

O Jogo do Poder

A nova configuração tributária está redesenhando o mapa do poder e dinheiro em Brasília. O IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) vai substituir ICMS, ISS e outros tributos. Mas quem fica com quanto?

Municípios descobriram que podem avançar sobre território tradicionalmente dominado pelos Estados. A estratégia: pressionar congressistas e usar a capilaridade política das 5.568 prefeituras brasileiras.

Estados sempre foram os reis da arrecadação. O ICMS rendeu R$ 644 bilhões em 2024 — dinheiro que ficava nos cofres estaduais. Agora, essa montanha de recursos será repartida de forma diferente.

Quem Ganha, Quem Perde

A Confederação Nacional de Municípios já colocou as cartas na mesa. Quer garantir que prefeituras recebam fatia maior do novo bolo tributário. O argumento: são as cidades que entregam serviços básicos — saúde, educação, transporte.

Governadores contra-atacam. Alegam que Estados têm estruturas maiores, dívidas históricas e responsabilidades que municípios não carregam. Polícias, universidades estaduais, grandes obras de infraestrutura.

O Senado virou ringue. Cada grupo pressiona seus aliados. Lobby bilionário em ação.

O Dinheiro Invisível

Para o cidadão comum, pouco importa se o imposto vai para Estado ou município. A carga tributária brasileira continua entre as mais altas do mundo — 33% do PIB.

Mas para quem está no poder, cada ponto percentual vale bilhões. E bilhões compram:

  • Obras com placas e inaugurações
  • Empregos públicos para distribuir
  • Contratos polpudos para aliados
  • Caixas para campanhas eleitorais

A reforma tributária promete transparência. Na teoria. Na prática, cria novo jogo de poder onde os mesmos jogadores disputam posições diferentes no tabuleiro.

Brasília Decide

A regulamentação final sairá do Congresso nos próximos meses. Deputados e senadores negociam cada vírgula do texto. Cada vírgula vale milhões.

Municípios argumentam que estão mais próximos do cidadão. Estados dizem que têm escala para investimentos maiores. Os dois têm razão. Os dois querem mais dinheiro.

O contribuinte brasileiro assiste de camarote — pagando ingresso caríssimo para ver a briga. Independente de quem vença, o Leão continuará abocanhando um terço de tudo que você produz.

A diferença é que agora prefeitos querem dentes maiores na mordida.

"A reforma tributária não diminui imposto. Apenas muda quem comanda o cofre."

Enquanto isso, a conta de R$ 700 bilhões por ano continua sendo paga por quem acorda cedo, trabalha e vê metade do salário sumir antes de chegar na conta.

Fernando Andrade Villela

Fernando Andrade Villela

Investigador financeiro. Cobre offshores, patrimônio declarado vs. real, e o cruzamento entre política e mercado.