Netanyahu cai: o manual de sobrevivência política dos ricos

Netanyahu cai: o manual de sobrevivência política dos ricos
Foto: toi.li

Enquanto você paga 27,5% de imposto de renda, Benjamin Netanyahu negocia sua sobrevivência política como quem administra um portfólio offshore — calculado, frio, pensando no retorno após a queda.

O primeiro-ministro de Israel está nos últimos dias no poder. Mas não está preocupado em governar. Está preocupado em voltar.

O preço da volta

Netanyahu cedeu às demandas dos Haredim — os ultraortodoxos judeus que controlam votos decisivos no Knesset, o parlamento israelense. Isenções militares, verbas religiosas, privilégios fiscais. Tudo liberado.

Por quê? Simples: ele precisa desse bloco para retornar ao poder depois das eleições. É aritmética eleitoral. É business.

A estratégia não é nova. Nem exclusiva de Israel. Políticos do mundo inteiro — incluindo aqui no Brasil — usam o mesmo playbook quando sentem o chão tremer: fortalecer alianças estratégicas, garantir bases leais, preparar o terreno para o retorno.

Offshore político: a blindagem que funciona

Netanyahu domina uma arte que poucos políticos brasileiros aprenderam tão bem: transformar crise em trampolim.

Enquanto enfrenta acusações de corrupção — três processos criminais em andamento —, ele não recua. Avança. Negocia. Cede aqui, ganha ali. Mantém a máquina funcionando.

É o equivalente político das offshores: estruturas criadas não necessariamente para esconder, mas para proteger, blindar e garantir continuidade. Nem sempre ilegais. Sempre eficazes.

"No jogo do poder, quem sai sem garantias não volta. Netanyahu sabe disso melhor que ninguém."

Quem ganha, quem perde

Os Haredim ganham tudo o que pediram. Netanyahu ganha os votos deles na próxima rodada. O cidadão israelense comum? Esse paga a conta — literal e figuradamente.

Isenções religiosas custam bilhões de shekels aos cofres públicos. Jovens seculares servem o exército obrigatoriamente enquanto jovens ultraortodoxos estudam textos sagrados com dinheiro do Estado.

Desigualdade? Sim. Injusto? Talvez. Eficaz politicamente? Absolutamente.

O paralelo brasileiro

Aqui no Brasil, a lógica é similar. Políticos investigados negociam com bancadas religiosas, ruralistas, corporativas. Cedem emendas, cargos, benefícios fiscais. Constroem blindagens institucionais.

Offshores políticos não precisam estar nas Ilhas Cayman. Podem estar no Congresso Nacional, em acordos de gaveta, em nomeações estratégicas para tribunais superiores.

A diferença é que Netanyahu faz isso às claras. Sem hipocrisia. É transação política pura — cínica, talvez, mas transparente em sua lógica.

Lições de um sobrevivente

Netanyahu já foi primeiro-ministro por mais tempo que qualquer outro na história de Israel. Não é sorte. É método.

  • Nunca sair do jogo completamente
  • Manter bases eleitorais mobilizadas e satisfeitas
  • Transformar processos judiciais em narrativa de perseguição
  • Negociar até o último minuto no poder

São táticas que políticos brasileiros observam com atenção. Alguns já aplicam versões tropicais do mesmo manual.

Netanyahu pode estar saindo agora. Mas apostaria seu patrimônio — declarado ou em offshore — que ele volta. Políticos como ele sempre voltam.

Porque no final, poder é como dinheiro: quem sabe proteger, multiplica. Quem não sabe, perde tudo.

Carolina Pereira Ferraz

Carolina Pereira Ferraz

Cronista de poder e dinheiro. Ex-Forbes Brasil, ex-Piauí. Especializada em rankings de riqueza, dinastias políticas e herdeiros do poder.