Poder e dinheiro em Brasília: 4% fazem barulho de 100%

Poder e dinheiro em Brasília: 4% fazem barulho de 100%
Foto: infomoney.com.br

Enquanto você discute política no Twitter até às três da manhã, 96% dos brasileiros estão falando de futebol, churrasco e BBB. A briga ideológica que parece consumir o país existe apenas na cabeça — e nos lucros — de um grupelho barulhento.

Renato Dolci, no programa Mapa de Risco, jogou água fria na narrativa da polarização permanente: apenas 4% das conversas online tratam de política. Quatro por cento. O resto? Vida real.

O negócio da raiva

Mas esses 4% movimentam fortunas. Plataformas digitais faturam com engajamento. Quanto mais ódio, mais cliques. Quanto mais cliques, mais anúncios. Quanto mais anúncios, mais dinheiro para Zuckerberg, Musk e a turma de Silicon Valley.

O truque é simples: um punhado de perfis hiperativos — muitos deles bots, influenciadores pagos ou militantes profissionais — cria a ilusão de que o Brasil inteiro está em guerra. Não está.

A conta é cristalina: se 4% gritam como se fossem 100%, alguém está amplificando esse grito. E não é por amor à democracia.

Brasília adora a novela

Em Brasília, a polarização artificial virou commodity. Partidos, consultorias políticas e agências digitais faturam milhões vendendo a ideia de que vivemos à beira do abismo. Sempre.

Deputados levantam bandeiras ideológicas nas redes sociais enquanto votam juntos no Congresso. A briga é cenográfica. O dinheiro é real.

Dolci acertou o diagnóstico: a percepção de conflito permanente é fabricada por quem tem interesse nela. Não é teoria da conspiração. É modelo de negócio.

"A polarização que vemos online não reflete o país real. É amplificação intencional de uma minoria barulhenta."

Quem paga a conta

Enquanto isso, o brasileiro médio — aquele dos 96% — continua pagando impostos, trabalhando e tentando sobreviver. Ele não tem tempo para guerras culturais. Tem boletos.

Mas o circo digital distrai. E enquanto todo mundo briga por bandeira, ninguém questiona para onde vai o orçamento. Ou quem está ganhando com a confusão.

As plataformas ganham. As agências ganham. Os influenciadores ganham. Brasília ganha.

Você? Você só ganha úlcera.

A verdade nua e crua

O Brasil não está polarizado. Uma fração minúscula de brasileiros está polarizada — e sendo muito bem paga para isso.

O resto do país está tentando viver. Trabalhando, cuidando da família, torcendo pelo time, assistindo Netflix.

Mas admitir isso não vende. Não gera clique. Não movimenta a indústria do ódio que fatura bilhões por ano.

Então a narrativa continua: direita contra esquerda, bem contra mal, nós contra eles. Sempre.

E enquanto você compartilha textão inflamado, alguém em São Paulo, em Brasília ou na Califórnia está rindo no caminho do banco.

A polarização é teatro. O dinheiro é real. E você é plateia pagante.

Fernando Andrade Villela

Fernando Andrade Villela

Investigador financeiro. Cobre offshores, patrimônio declarado vs. real, e o cruzamento entre política e mercado.