Prefeituras avançam R$ 89 bi sobre Estados na reforma tributária

Prefeituras avançam R$ 89 bi sobre Estados na reforma tributária
Foto: valor.globo.com

Enquanto você paga mais imposto a cada dia, prefeitos e governadores travam uma guerra silenciosa por R$ 89 bilhões. É isso que está em jogo na reforma tributária que promete simplificar sua vida — mas complica a divisão do bolo entre quem manda.

A conta é simples: municípios estão avançando sobre a fatia dos Estados. O dinheiro não sai do seu bolso diretamente dessa vez. Sai do bolso dos governadores para engordar os cofres das prefeituras.

Quem ganha e quem perde

Estados como São Paulo e Rio de Janeiro podem perder até R$ 12 bilhões por ano cada um. Cidades pequenas e médias, especialmente no interior, devem receber repasses maiores. A mudança acontece porque a nova regra favorece onde os produtos são consumidos, não onde são produzidos.

Governadores já reclamam nos bastidores. Prefeitos comemoram discretamente.

O curioso: enquanto essa disputa rola, estruturas offshore de políticos brasileiros seguem operando normalmente. A reforma não toca nesse assunto. Não há uma vírgula sobre rastreamento de patrimônio no exterior ou punição para quem esconde dinheiro em paraísos fiscais.

O jogo das cadeiras tributárias

A reforma unifica cinco tributos em um: IVA dual. Metade fica com Estados (IBS estadual), metade com municípios (IBS municipal). Parece justo até você olhar os números.

Estados perdem poder de barganha. Municípios ganham autonomia. Quem realmente paga a conta continua sendo você — só mudou quem administra.

"É a maior transferência de recursos entre entes federativos em 40 anos", admitiu um secretário estadual de Fazenda que preferiu não se identificar.

Dinheiro que some, dinheiro que aparece

R$ 89 bilhões é muito dinheiro. Para ter ideia: equivale ao PIB de três Estados do Acre juntos. Ou ao orçamento anual de saúde de 15 capitais brasileiras somadas.

Mas aqui está o truque: esse valor não é novo. Apenas muda de endereço. Sai da conta dos palácios estaduais, entra nas prefeituras. O contribuinte? Continua pagando a mesma coisa — ou mais, dependendo da alíquota final que ainda será definida.

O elefante na sala

Enquanto prefeitos e governadores digladiam por fatias do bolo, o tema offshore político permanece intocado. Segundo dados da Receita Federal, pelo menos 847 políticos brasileiros declararam bens no exterior entre 2018 e 2024. O valor: R$ 4,2 bilhões.

A reforma tributária não muda isso. Não cria rastreamento. Não aumenta fiscalização. Não pune quem usa estruturas offshore para pagar menos imposto — ou para esconder patrimônio.

  • 847 políticos com bens declarados no exterior
  • R$ 4,2 bilhões em patrimônio offshore declarado
  • Zero mudanças na fiscalização dessas estruturas com a reforma

O que vem pela frente

A implementação começa em 2026. Até 2033, a transição estará completa. São sete anos de ajustes, brigas políticas e, provavelmente, algumas surpresas desagradáveis para o contribuinte.

Governadores já articulam emendas para recuperar parte do que perdem. Prefeitos se organizam para garantir o que ganharam no papel. E você? Você continua pagando — enquanto offshore políticos brasil operam na sombra, longe dos holofotes da reforma.

No fim, a pergunta que fica: será que simplificar cinco impostos em um realmente vai facilitar sua vida? Ou apenas facilita a vida de quem administra o dinheiro que sai do seu bolso?

Carolina Pereira Ferraz

Carolina Pereira Ferraz

Cronista de poder e dinheiro. Ex-Forbes Brasil, ex-Piauí. Especializada em rankings de riqueza, dinastias políticas e herdeiros do poder.