Quem manda no Brasil? ONS corta energia solar de pequenos

Enquanto você paga R$ 0,80 por kilowatt na conta de luz, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) acaba de assumir o poder de desligar painéis solares de residências e pequenos negócios. A justificativa? Sobra energia no sistema.

Em 19 de julho, o ONS atualizou os dados do Sistema Interligado Nacional (SIN) e incorporou pela primeira vez a microgeração distribuída — aqueles painéis solares em telhados de casas e empresas — no seu radar de controle. Tradução: quem investiu para não depender das gigantes elétricas agora pode ter o sistema cortado quando o operador quiser.

O jogo de poder por trás dos megawatts

A medida foi vendida como técnica. O ONS diz que precisa "aprimorar a representação da carga total" do sistema. Mas o timing revela outra história.

Com a explosão da geração solar — mais de 2,4 milhões de sistemas instalados no país —, as grandes distribuidoras viram sua receita despencar. Menos gente comprando energia das concessionárias significa menos lucro para grupos que movimentam bilhões.

A solução encontrada: criar um mecanismo de "gestão de excedentes". Nome bonito para um poder simples: desligar quem gera energia própria quando convém ao sistema.

Quem contra quem

De um lado: ONS e grandes distribuidoras, que controlam o fluxo e o preço da energia no Brasil. Do outro: 2,4 milhões de brasileiros que investiram em painéis solares para fugir das tarifas abusivas e agora descobrem que a independência energética tem limite.

O operador tem poder para cortar usinas conectadas à rede de distribuição. Isso inclui desde a fazenda solar de médio porte até o sistema residencial do seu vizinho.

"A intensificação da gestão de excedentes" é o eufemismo oficial para o que está acontecendo: centralização do controle energético.

Os números que ninguém conta

O Brasil tem capacidade instalada de 203 GW. A microgeração distribuída representa cerca de 18 GW dessa potência. Não é pouco.

Cada residência com painel solar deixa de injetar entre R$ 200 e R$ 800 por mês nas distribuidoras. Multiplique por milhões de unidades e você entende por que o tema virou prioridade estratégica.

O discurso oficial fala em "estabilidade do sistema". O discurso real é sobre quem controla o maior ativo estratégico do país: energia elétrica.

Quem manda no Brasil decide quem gera

A atualização dos dados do SIN não é apenas técnica. É política.

Ao incorporar a microgeração no sistema de controle, o ONS — órgão que responde ao Ministério de Minas e Energia e é fortemente influenciado pelas grandes geradoras — assume o comando sobre uma fatia crescente da matriz energética.

O brasileiro que investiu R$ 20 mil, R$ 30 mil ou R$ 50 mil em painéis solares achando que teria autonomia agora descobre que autonomia no Brasil é relativa. Sempre tem alguém acima com poder de desligar o interruptor.

A pergunta que fica: se sobra energia no sistema, por que a conta não baixa? Por que o corte atinge primeiro quem gera de forma limpa e distribuída, e não as térmicas caras e poluentes que entram em operação todo verão?

A resposta está na mesma estrutura de sempre: quem manda no Brasil protege quem lucra no Brasil. E o consumidor — seja ele classe média com painel no telhado ou trabalhador pagando conta de R$ 400 — continua sendo a variável de ajuste.

Isabela Guimarães Coutinho

Isabela Guimarães Coutinho

Editora de perfis. Escreve retratos de personagens do poder — do bilionário ao aliado invisível do Planalto.