Quem manda no Brasil: Briga de R$ 6 bi sacode Oncoclínicas

Quem manda no Brasil: Briga de R$ 6 bi sacode Oncoclínicas
Foto: valor.globo.com

Seis bilhões de reais. Esse é o preço da guerra que está redefinindo quem manda no mercado bilionário do câncer no Brasil. E o jogo mudou na sexta-feira passada.

A gestora americana Centaurus despencou sua fatia na Oncoclínicas de 14,76% para apenas 9,91% em um único movimento. Perdeu o trono. Saiu do comando.

Quem assumiu? A Latache, com 14,59%, agora é a maior acionista da maior rede de tratamento oncológico do país. E não está sozinha nessa queda de braço.

A OPA que vale sete vezes a empresa

Os números assustam. A oferta pública de aquisição (OPA) em discussão avalia a Oncoclínicas em R$ 6 bilhões — quase sete vezes seu valor atual de mercado. É dinheiro suficiente para comprar dezenas de hospitais. Ou financiar tratamentos gratuitos para milhares de pacientes do SUS por anos.

Mas não é disso que se trata. Trata-se de poder. De controle. De quem vai dominar um setor que movimenta fortunas enquanto brasileiros morrem em filas.

A Latache não apareceu do nada. A gestora já vinha acumulando posições, preparando o bote. Agora, com a saída estratégica da Centaurus, o caminho para a OPA ficou mais limpo.

Quem está por trás do dinheiro

A Oncoclínicas não é uma clínica de bairro. É um império que opera 138 unidades em 36 cidades brasileiras. Atende quem pode pagar — e pagar bem.

Enquanto o Brasil registra mais de 700 mil novos casos de câncer por ano, segundo o INCA, a rede privada cresce exponencialmente. A conta é simples: doença não escolhe classe social, mas o tratamento de ponta, sim.

A movimentação da Centaurus levanta questões óbvias. Por que reduzir agora? A gestora americana está saindo antes de uma valorização estratosférica — ou sabe de algo que o mercado ainda não viu?

"Quando tubarões brigam, os peixes pequenos observam. Mas quem paga a conta, no fim, são os pacientes."

O jogo das cadeiras bilionário

A dança das cadeiras no conselho da Oncoclínicas revela o verdadeiro mapa do poder na saúde privada brasileira:

  • Latache: 14,59% — novo comandante, interessada na OPA
  • Centaurus: 9,91% — recuou estrategicamente
  • IG4: aparece como interessada na oferta bilionária

Três nomes. Três estratégias. Um objetivo: controlar o mercado mais lucrativo do país em plena expansão.

Quanto vale uma vida?

Para ter dimensão: R$ 6 bilhões dariam para construir 120 hospitais oncológicos públicos de médio porte. Ou garantir tratamento completo para 300 mil pacientes.

Mas essa não é a matemática que interessa aos fundos de investimento. A equação deles é outra: quanto crescimento, quanto retorno, quanto poder de mercado.

A Oncoclínicas reportou receita líquida de R$ 4,3 bilhões em 2024. Margem EBITDA de 22%. Números que fazem gestoras internacionais salivarem.

Enquanto isso, o brasileiro comum com câncer enfrenta esperas de meses no SUS. Dois Brasis. Uma doença. Vários bolsos sendo enchidos.

O que vem por aí

A saída parcial da Centaurus não encerra o jogo — acelera. Com a Latache no comando e a IG4 rondando, a OPA de R$ 6 bilhões pode ser apenas o começo de uma consolidação ainda maior.

O mercado de oncologia privada no Brasil vale mais de R$ 20 bilhões anuais. E está crescendo 15% ao ano. Quem controla a Oncoclínicas controla uma fatia gigantesca desse bolo.

A pergunta que fica: quem realmente manda nesse Brasil onde saúde é negócio, e negócio é saúde apenas para quem pode pagar?

A resposta está sendo escrita agora. Em cheques de bilhões. Longe dos hospitais. Longe dos pacientes. Nas salas de reunião onde o poder real se decide.

Fernando Andrade Villela

Fernando Andrade Villela

Investigador financeiro. Cobre offshores, patrimônio declarado vs. real, e o cruzamento entre política e mercado.