Gigante vende usina por R$ 760 mi enquanto políticos escondem offshore

Gigante vende usina por R$ 760 mi enquanto políticos escondem offshore
Foto: agenciainfra.com

Enquanto você paga R$ 6 no litro da gasolina, a Raízen acabou de embolsar R$ 760 milhões vendendo a Usina Caarapó para a Adecoagro Vale do Ivinhema. O dinheiro é real. A transparência sobre quem realmente lucra com essas operações bilionárias no agronegócio brasileiro? Essa é outra história.

A transação foi anunciada nesta semana e inclui a unidade industrial completa em Mato Grosso do Sul, além da cessão de toda a cana-de-açúcar própria e contratos amarrados com fornecedores. Estamos falando de uma usina que processou 3,5 milhões de toneladas de cana na última safra.

Quem Está Por Trás do Dinheiro

A Raízen, para quem não conhece o jogo, é uma joint venture entre a Shell e a Cosan. Dois pesos-pesados globais que movimentam bilhões enquanto o brasileiro médio mal consegue abastecer o tanque até o fim do mês.

Do outro lado da mesa, a Adecoagro. Empresa com operações espalhadas pela América do Sul, com atuação forte no setor sucroenergético. Dinheiro chamando dinheiro, como sempre.

O negócio faz parte de um movimento maior da Raízen para "otimizar seu portfólio de ativos". Traduzindo do economês corporativo: vender o que não está dando o lucro desejado e concentrar capital onde rende mais.

O Jogo das Offshores

Operações desse tamanho levantam sempre a mesma questão: para onde vai o dinheiro? Quantos intermediários existem nessa cadeia? Quais políticos têm participações escondidas em offshores ligadas a empresas do setor?

No Brasil, a relação promíscua entre agronegócio e política não é segredo para ninguém. O problema é que a estrutura de offshores de políticos brasileiros continua sendo uma caixa-preta conveniente.

Enquanto transações multimilionárias acontecem às claras no setor sucroenergético, as conexões financeiras dos tomadores de decisão que regulam esse mesmo setor permanecem envoltas em sigilo corporativo e paraísos fiscais.

Os Números Que Importam

  • R$ 760 milhões pelo ativo completo
  • 3,5 milhões de toneladas de cana processadas por ano
  • Contratos de fornecimento incluídos no pacote
  • Zero transparência sobre beneficiários finais

A Usina Caarapó representa apenas uma peça no tabuleiro gigantesco do agronegócio brasileiro. A Raízen continua operando dezenas de outras unidades pelo país. A Adecoagro expande seu império agroindustrial.

E você? Continua pagando caro na bomba, sem saber exatamente quem está lucrando com cada centavo que sai do seu bolso.

"A operação faz parte da estratégia de otimização de portfólio da companhia", informou a Raízen em comunicado oficial.

Otimização. Eficiência. Estratégia. Palavras bonitas para movimentações de capital que afetam o preço que você paga no supermercado e no posto de gasolina.

Enquanto isso, a discussão sobre transparência patrimonial de políticos e suas conexões offshore segue engavetada no Congresso. Coincidência? Pode apostar que não.

O agronegócio brasileiro movimenta centenas de bilhões anualmente. As usinas trocam de mãos por valores astronômicos. E o cidadão comum fica apenas observando os preços subirem, sem entender direito quem está embolsando a diferença.

São R$ 760 milhões em jogo nesta transação específica. Multiplique isso pelas dezenas de operações similares que acontecem todos os anos. Faça as contas. Depois pergunte-se por que a reforma tributária nunca avança de verdade.

Fernando Andrade Villela

Fernando Andrade Villela

Investigador financeiro. Cobre offshores, patrimônio declarado vs. real, e o cruzamento entre política e mercado.