Tarifaço de Trump esmaga têxtil enquanto ricos do Congresso lucram

Tarifaço de Trump esmaga têxtil enquanto ricos do Congresso lucram
Foto: valor.globo.com

Enquanto a costureira de São Paulo rala 12 horas por dia para ganhar R$ 1.800, um congressista brasileiro embolsa dividendos gordos de plataformas chinesas que matam a indústria nacional. E agora, Trump joga mais gasolina na fogueira.

A tarifa de 25% imposta pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros chegou como uma marreta sobre a indústria têxtil e de calçados. Um setor que já sangrava.

A conta é simples e brutal: o Brasil exporta US$ 380 milhões em têxteis e calçados para os americanos por ano. Com a tarifa, isso vira pó.

Dupla guilhotina

A pressão vem de dois lados. De fora, Trump. De dentro, as plataformas internacionais de e-commerce que inundam o mercado brasileiro com produtos asiáticos a preços impossíveis de competir.

Shein, Temu, AliExpress. Esses nomes viraram pesadelo para quem fabrica no Brasil.

O truque é velho: subfaturamento, isenções fiscais em compras até US$ 50, dumping descarado. Enquanto isso, a fábrica brasileira paga imposto cheio, CLT, energia cara, logística caótica.

Resultado? Falência em massa. Demissões aos milhares.

Quem lucra com a destruição

Aqui entra o escândalo que ninguém quer ver.

Deputados e senadores — aqueles que deveriam defender a indústria nacional — têm investimentos pesados em fundos ligados a essas mesmas plataformas estrangeiras.

Não estamos falando de trocados. São milhões em ações, participações societárias, consultorias.

Os ricos do Congresso engordam suas contas enquanto votam projetos que fingem proteger o mercado nacional. Pura hipocrisia.

"Perdemos 15% dos postos de trabalho nos últimos dois anos. Agora, com a tarifa americana, pode ser o golpe final", diz fonte da indústria calçadista gaúcha.

O custo humano

Por trás dos números, gente de carne e osso.

Franca, em São Paulo, capital do calçado: fábricas fechando, famílias inteiras desempregadas.

Vale do Itajaí, em Santa Catarina, polo têxtil: tecelagens virando galpões abandonados.

São 1,5 milhão de empregos diretos na indústria têxtil e de calçados. Cada posto perdido significa uma família quebrada, filhos fora da escola, sonhos abortados.

Mas para quem tem offshore nas Ilhas Cayman, isso é só estatística.

Trump não é o vilão único

A tarifa americana dói, sem dúvida. Mas é sintoma, não causa.

O setor já estava de joelhos pela inação criminosa de Brasília. Nenhuma proteção real contra a concorrência desleal. Nenhuma reforma tributária que equilibre o jogo.

Só discurso vazio e patriotismo de ocasião.

Enquanto isso, os parlamentares milionários diversificam portfólio, sempre um passo à frente. Lucram com a globalização selvagem que defendem em público e da qual se beneficiam em privado.

Quanto vale um setor?

A indústria têxtil e de calçados representa R$ 200 bilhões em faturamento anual.

É o segundo maior empregador da indústria de transformação, atrás apenas de alimentos.

Mas para os ricos do Congresso, isso não importa. O que importa é o dividendo trimestral das ações da plataforma chinesa.

Trump apertou o cerco. As plataformas asiáticas estrangulam por dentro. E Brasília assiste, quando não participa do banquete.

A costureira de São Paulo? Essa vai virar Uber. Se tiver sorte.

Fernando Andrade Villela

Fernando Andrade Villela

Investigador financeiro. Cobre offshores, patrimônio declarado vs. real, e o cruzamento entre política e mercado.