Têxtil afunda: quem lucra com a crise que esmaga fábricas?
Enquanto operários de fábricas têxteis no interior de São Paulo e Santa Catarina tremem com a ameaça de demissão em massa, um seleto grupo observa a carnificina de camarote — e lucra com ela.
A indústria brasileira de têxteis e calçados enfrenta agora uma guilhotina de dois gumes: de um lado, a tarifa de 25% imposta pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros; do outro, a invasão silenciosa de plataformas internacionais como Shein e Temu que inundam o mercado doméstico com preços que desafiam qualquer lógica produtiva.
O golpe duplo
A tarifa americana não veio do nada. É retaliação comercial, jogo de poder entre gigantes. Mas quem paga a conta? Os 1,5 milhão de brasileiros que trabalham no setor têxtil — o segundo maior empregador da indústria de transformação do país.
Fernando Pimentel, presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), disse ao Valor que o setor já operava no limite. "Estamos sendo atacados por dentro e por fora simultaneamente", declarou.
Tradução: fábricas centenárias, que sobreviveram a planos econômicos, hiperinflação e recessões, podem não passar de 2026.
O inimigo interno
Enquanto a tarifa americana sufoca as exportações — que representam apenas 4% da produção, mas são vitais para grandes grupos —, plataformas chinesas dominam o varejo brasileiro.
Dados da Abit mostram que as importações de vestuário cresceram 47% em 2025. A maior parte? China, via rotas comerciais que driblam fiscalização e pagam impostos irrisórios.
É a concorrência desleal na veia. Empresas brasileiras recolhem 40% de impostos sobre produção. Os chineses? Menos de 10%, quando pagam.
Quem ganha com o caos
Eis a pergunta que ninguém faz: quem lucra quando a indústria nacional afunda?
Importadores, lobistas, plataformas digitais estrangeiras — e, claro, parlamentares que bloqueiam qualquer tentativa de regulação mais dura sobre comércio eletrônico internacional.
Não é coincidência que o patrimônio de senadores tenha crescido em média 23% nos últimos dois anos, segundo dados do TSE, enquanto a indústria têxtil encolheu 8% no mesmo período.
Alguns desses senadores integram comissões que decidem sobre comércio exterior e tributação. Conflito de interesse? Pergunte a eles.
A conta que não fecha
A pressão dupla cria um cenário insustentável. Empresários relatam que fábricas em Americana (SP) e Brusque (SC) — polos históricos do setor — operam com 60% da capacidade.
Demissões já começaram. Só no primeiro trimestre de 2026, o setor perdeu 34 mil postos de trabalho formal.
E a resposta do governo? Reuniões, grupos de trabalho, promessas de diálogo. Enquanto isso, a Shein abre mais um centro de distribuição em São Paulo.
O xadrez do poder
A questão é simples: ou o Brasil protege minimamente sua indústria nacional, ou assiste passivamente à desindustrialização completa do setor têxtil.
Não se trata de protecionismo anacrônico. Trata-se de igualdade de condições. Se empresa chinesa vende aqui, que pague os mesmos impostos. Se os EUA taxam produtos brasileiros, que haja reciprocidade.
Mas isso exige coragem política — commodity escassa em Brasília, especialmente entre aqueles cujo patrimônio cresce na contramão da economia real.
Enquanto o Congresso enrola, fábricas fecham. Enquanto senadores debatem, famílias perdem renda. E a conta, como sempre, fica para quem não tem bancada: o trabalhador brasileiro.