Tragédia em Guiana: 27 mortos expõem corrida do ouro selvagem

Vinte e sete corpos. Esse é o saldo oficial até agora do naufrágio de uma balsa na Guiana, país vizinho do Brasil, que afundou a caminho de um garimpo de ouro clandestino. Dezenas de outros passageiros ainda estão desaparecidos — equipes de resgate vasculham o rio Barima em busca de mais vítimas.

A embarcação levava trabalhadores, muitos deles brasileiros, para um posto avançado de mineração ilegal. Ouro. Sempre o ouro. O metal que move fortunas, compra mansões em Miami e financia campanhas políticas também mata — e mata pobres.

O negócio bilionário por trás da tragédia

A Guiana vive um boom extrativista sem precedentes. Desde a descoberta de reservas gigantes de petróleo em 2015, o pequeno país sul-americano se tornou ímã para investidores internacionais e garimpeiros sem escrúpulos. A mineração de ouro, embora ofuscada pelo petróleo, movimenta US$ 400 milhões anuais — boa parte em operações irregulares.

Quem lucra? Não são os passageiros da balsa, obviamente. São os atravessadores que controlam as rotas fluviais, os donos invisíveis das minas e os políticos locais que fazem vista grossa mediante propina. Um esquema que ecoa práticas similares na Amazônia brasileira.

Conexão brasileira: herdeiros políticos e mineração

O timing da tragédia não poderia ser mais irônico. Enquanto corpos boiam no rio Barima, no Congresso brasileiro herdeiros políticos de tradicionais famílias do Norte debatem a liberação de garimpo em terras indígenas e áreas protegidas.

Nomes conhecidos — filhos, netos e sobrinhos de caciques regionais — defendem projetos que facilitariam exatamente o tipo de exploração que matou na Guiana. O argumento? Geração de emprego e renda. A realidade? Trabalho escravo, mortes evitáveis e fortunas concentradas.

Segundo fontes do setor, cada grama de ouro extraída ilegalmente na região amazônica gera entre R$ 8 e R$ 12 de lucro para intermediários. Multiplicado por toneladas anuais, o negócio supera R$ 2 bilhões — dinheiro que irriga campanhas e compra influência.

Fiscalização zero, lucro máximo

A balsa que afundou não tinha licença para transporte de passageiros. Estava superlotada. Não havia coletes salva-vidas suficientes. Um cenário que se repete em dezenas de embarcações que cruzam diariamente a fronteira entre Brasil, Guiana e Suriname.

Autoridades guianenses prometem investigação rigorosa. Mas a história se repete: tragédia, comoção, promessas — e nada muda. Os donos do ouro continuam invisíveis, protegidos por redes de poder que atravessam fronteiras e parlamentos.

Enquanto isso, famílias brasileiras, muitas do Pará e Roraima, aguardam notícias de parentes desaparecidos. Trabalhadores que buscavam na Guiana o que o Brasil lhes negou: uma chance de sobrevivência. E encontraram a morte.

"Cada corpo recuperado do rio conta a mesma história: pobreza embarcando, riqueza ficando em terra. O ouro não mata sozinho — mata com ajuda de quem lucra com a desgraça alheia."
Isabela Guimarães Coutinho

Isabela Guimarães Coutinho

Editora de perfis. Escreve retratos de personagens do poder — do bilionário ao aliado invisível do Planalto.