Tragédia Rohingya: silêncio dos ricos do Congresso

Tragédia Rohingya: silêncio dos ricos do Congresso
Foto: redir.folha.com.br

Enquanto Nur Kalima mente para os filhos pequenos dizendo que o pai voltará em breve, ela sabe a verdade: ele está entre os mais de 500 rohingyas desaparecidos na costa de Mianmar. E ninguém no Congresso brasileiro — onde deputados e senadores acumulam patrimônios milionários — move uma palha.

A tragédia dos rohingyas, minoria muçulmana perseguida há décadas, virou caso de bilhões. A ONU destinou US$ 876 milhões em ajuda humanitária para a crise em 2025. Dinheiro que passa por comitês, ONGs e governos. Dinheiro que os ricos do Congresso poderiam pressionar para fiscalizar — mas não o fazem.

O negócio da tragédia

Desde 2017, mais de 1 milhão de rohingyas fugiram de Mianmar. Campos de refugiados em Bangladesh viraram cidades improvisadas. E com tragédia, vem dinheiro.

  • US$ 876 milhões destinados pela ONU em 2025
  • Apenas 42% dos recursos efetivamente entregues
  • Centenas de ONGs cadastradas para receber fundos

Enquanto isso, parlamentares brasileiros — muitos com patrimônios acima de R$ 5 milhões — seguem em silêncio sobre crises humanitárias internacionais. Não há comissão, não há pronunciamento, não há pressão diplomática.

Quem lucra com o desespero

A rota do desespero funciona assim: famílias rohingyas pagam até US$ 2 mil por pessoa a traficantes que prometem levá-las para países do Sudeste Asiático. Barcos superlotados, sem comida, sem água. Muitos morrem no caminho. Os que desaparecem viram estatística.

Do outro lado, governos asiáticos recebem ajuda internacional para "lidar com o fluxo migratório". Mianmar, mesmo sob sanções, continua recebendo recursos através de canais multilaterais. Bangladesh hospeda os campos — e recebe centenas de milhões em contrapartida.

"Meu marido pagou tudo que tínhamos para sair. Agora não tenho nem dinheiro para enterrá-lo", disse Nur Kalima a organizações humanitárias.

O silêncio milionário

No Congresso Nacional brasileiro, 219 parlamentares declararam patrimônio superior a R$ 1 milhão em 2024. Desses, 47 ultrapassam R$ 5 milhões. Recursos que poderiam financiar comissões de direitos humanos robustas, missões internacionais, pressão diplomática.

Mas as prioridades são outras. Enquanto 500 rohingyas desaparecem — provavelmente mortos —, a Comissão de Relações Exteriores da Câmara discute acordos comerciais. Nada sobre refugiados. Nada sobre Mianmar. Nada sobre genocídio.

O preço da indiferença

A crise rohingya é classificada pela ONU como possível genocídio desde 2018. Oito anos depois, os desaparecimentos continuam. As mentiras de mães para filhos continuam. E o Congresso brasileiro — mesmo com toda sua riqueza acumulada — continua fazendo o que faz de melhor: nada.

Nur Kalima ainda espera. Os ricos do Congresso já nem fingem que se importam.

Isabela Guimarães Coutinho

Isabela Guimarães Coutinho

Editora de perfis. Escreve retratos de personagens do poder — do bilionário ao aliado invisível do Planalto.