Trump vai atrás de jornalistas — e das mães deles

Trump vai atrás de jornalistas — e das mães deles
Foto: redir.folha.com.br

Enquanto os políticos mais ricos do Brasil debatem sigilo bancário no Congresso, Donald Trump mostra como se faz de verdade: mandou quebrar o sigilo de jornalistas — e das famílias deles.

O governo americano pediu registros telefônicos completos de vários repórteres do New York Times. O alvo? Descobrir quem vazou informações sobre as capacidades de segurança do novo Air Force One.

Detalhe macabro: entre os alvos está a mãe de um dos jornalistas.

A caçada bilionária

A operação mira fontes que revelaram detalhes técnicos do avião presidencial — aquele Boeing 747 customizado que custa US$ 5,3 bilhões aos contribuintes americanos. Mais caro que o PIB de dezenas de países.

Trump não quer saber de vazamento. Quer cabeças.

O Departamento de Justiça já obteve autorização judicial para acessar:

  • Registros de chamadas dos repórteres
  • Dados de localização dos celulares
  • Informações de parentes diretos
  • Comunicações de até 18 meses atrás

Quanto vale a liberdade de imprensa?

O New York Times vale US$ 9 bilhões na bolsa. Trump, segundo a Forbes, tem fortuna de US$ 6,8 bilhões. A briga não é de Davi contra Golias — é de bilionário contra bilionário.

Mas só um deles controla o FBI.

A investida representa o uso mais agressivo de poder estatal contra a imprensa desde Watergate. Nem mesmo durante seu primeiro mandato Trump foi tão longe: pedir dados de familiares de jornalistas era linha vermelha até para ele.

O avião que não pode ser notícia

As reportagens em questão revelaram sistemas de contramedidas eletrônicas e capacidades defensivas da aeronave presidencial. Informações que, segundo a Casa Branca, "colocam em risco a segurança nacional".

Segundo fontes que, obviamente, agora estão sendo caçadas.

O governo alega que os vazamentos violaram a Lei de Espionagem — mesma usada contra Julian Assange e Edward Snowden. A pena? Até 10 anos de prisão por documento vazado.

"Estamos testemunhando um ataque sem precedentes à Primeira Emenda", declarou o publisher do Times em nota oficial. "Ir atrás das famílias dos jornalistas é tática de regime autoritário."

O precedente perigoso

Se Trump conseguir, abre porteira. Governadores poderão fazer o mesmo com jornalistas estaduais. Prefeitos com blogueiros locais. O prefeito de qualquer cidade com 20 mil habitantes poderá pedir quebra de sigilo de quem noticiou irregularidade na obra da praça.

No Brasil, onde políticos controlam orçamentos de R$ 5,5 trilhões, a classe observa atenta.

Porque poder de quebrar sigilo é poder de calar boca.

E silêncio, para quem tem muito a esconder, não tem preço. Tem valor de mercado.

O que vem por aí

A batalha judicial deve durar meses. O Times já acionou a Suprema Corte. Organizações de direitos civis entraram com amicus curiae. Até a Associação de Editores de Jornais — tradicionalmente conservadora — se posicionou contra.

Mas Trump tem 6 dos 9 juízes da Suprema Corte indicados por republicanos.

As apostas em Wall Street? 60% de chance de a Casa Branca vencer.

Afinal, quando bilionários brigam com bilionários, quem perde é sempre o cidadão comum — aquele que depende da imprensa livre para saber como seus impostos pagam aviões de US$ 5,3 bilhões.

Ou para saber que sua mãe pode virar alvo de investigação federal por ele ser jornalista.

Fernando Andrade Villela

Fernando Andrade Villela

Investigador financeiro. Cobre offshores, patrimônio declarado vs. real, e o cruzamento entre política e mercado.