Voto em trânsito: como dinastias políticas blindam currais

Voto em trânsito: como dinastias políticas blindam currais
Foto: infomoney.com.br

Enquanto você lê isso, 156 milhões de eleitores brasileiros ganharam o direito de votar longe de casa em 2026. O prazo começou hoje. Mas tem um detalhe que ninguém conta: quem realmente usa isso são os mesmos de sempre.

O voto em trânsito permite que qualquer eleitor solicite transferência temporária da seção eleitoral. De 20 de julho a 20 de agosto, o processo pode ser feito pela internet ou em cartório. Simples, gratuito, democrático na teoria.

Na prática? Outra história.

O Jogo das Famílias

As dinastias políticas brasileiras adoram esse recurso. Filhos, sobrinhos, primos, cunhados — toda a árvore genealógica pode ser mobilizada para votar em redutos estratégicos. Um Sarney aqui, um Collor ali, Bolsonaros e Lulas espalhados pelo mapa conforme a necessidade eleitoral.

O mecanismo foi criado em 2008 para facilitar a vida de quem viaja a trabalho ou estuda longe. Nobre intenção. Mas virou ferramenta de logística eleitoral para quem tem estrutura — e dinheiro — para mover tropas.

Pense nisso: quantos trabalhadores informais conseguem planejar com um ano de antecedência onde estarão em outubro de 2026? Quantas empregadas domésticas têm certeza de que o patrão liberará folga para votar em outra cidade?

Os Números da Exclusão

Em 2022, apenas 1,4 milhão de eleitores usaram o voto em trânsito. Menos de 1% do eleitorado. Desses, a concentração foi brutal: capitais e cidades ricas receberam a esmagadora maioria dos pedidos.

Coincidência? Dificilmente.

O perfil de quem usa voto em trânsito revela tudo: executivos, funcionários públicos federais, estudantes de universidades particulares, profissionais liberais. Gente com agenda planejada e passagem comprada meses antes.

A massa que depende de ônibus intermunicipal e trabalha sem carteira assinada fica de fora. Como sempre.

Como Funciona o Sistema

O processo é simples para quem tem acesso digital. Pelo site do TSE ou aplicativo e-Título, o eleitor escolhe a cidade onde quer votar. Não precisa justificar. Não paga nada.

Requisitos básicos:

  • Estar com situação eleitoral regular
  • Não ter feito transferência temporária nas duas últimas eleições
  • Solicitar dentro do prazo (20/07 a 20/08)
  • Votar apenas para cargos majoritários (governador, senador, presidente)

A última regra é crucial: você não vota para deputado. Isso protege os currais eleitorais regionais. As dinastias locais continuam intocáveis enquanto mobilizam votos para aliados em disputas estaduais e federais.

O Que Está Em Jogo

Governadores de estados ricos sabem que suas eleições podem ser decididas por alguns milhares de votos estratégicos. São Paulo, Rio, Minas — mercados eleitorais onde mobilizar 50 mil votos de fora pode virar o jogo.

E quem tem estrutura para fazer isso? Os mesmos sobrenomes que dominam a política há décadas.

Partidos com orçamento investem em mapeamento de militantes espalhados pelo país. Identificam onde cada voto faz diferença. Orientam transferências. Bancam passagens quando necessário.

Enquanto isso, o discurso oficial vende democratização do voto.

A Conta Que Não Fecha

O TSE gastou R$ 18 milhões em campanha publicitária para divulgar o voto em trânsito desde 2020. Resultado? Os mesmos 1% de sempre participando.

O problema não é divulgação. É estrutural.

Quando o sistema eleitoral cria mecanismos que só funcionam para quem tem planejamento financeiro de longo prazo, não está democratizando nada. Está sofisticando privilégios.

As dinastias políticas brasileiras entenderam isso antes de todo mundo. E agradecem.

Isabela Guimarães Coutinho

Isabela Guimarães Coutinho

Editora de perfis. Escreve retratos de personagens do poder — do bilionário ao aliado invisível do Planalto.